1.12.11

Convite

(museu do brinquedo.Sintra)


Poesia é...

brincar com as palavras

como se brinca com bola, papagaio, pião

Só que bola, papagaio, pião

de tanto brincar se gastam.

As palavras não:

Quanto mais se brinca com elas,

mais novas ficam.

Como a água do ri

o que é água sempre nova.

Como cada dia

que é sempre um novo dia

. Vamos brincar de poesia?

José Paulo Paes

30.11.11

A boneca

(museu do brinquedo - Sintra)


Deixando a bola e a peteca,

Com que inda há pouco brincavam,

Por causa de uma boneca,

Duas meninas brigavam.

Dizia a primeira: “É minha!”

“É minha!” a outra gritava;

E nenhuma se continha,

Nem a boneca largava.

Quem mais sofria (coitada!)

Era a boneca. Já tinha

Toda a roupa estraçalhada,

E amarrotada a carinha.

Tanto puxaram por ela,

Que a pobre rasgou-se ao meio,

Perdendo a estopa amarela

Que lhe formava o recheio.

E, ao fim de tanta fadiga,

Voltando à bola e à peteca,

Ambas, por causa da briga,

Ficaram sem a boneca…

Olavo Bilac

1.5.11

Bóiam farrapos de sombra


Bóiam farrapos de sombra
Em torno ao que não sei ser.
É todo um céu que se escombra
Sem me o deixar entrever.

O mistério das alturas
Desfaz-se em ritmos sem forma
Nas desregradas negruras
Com que o ar se treva torna.

Mas em tudo isto, que faz
O universo um ser desfeito,
Guardei, como a minha paz,
A 'sp'rança, que a dor me traz,
Apertada contra o peito.

Fernando Pessoa

20.4.11

Se Eu Morrer Novo



Alberto Caeiro

Se eu morrer novo,
Sem poder publicar livro nenhum,
Sem ver a cara que têm os meus versos em letra impressa,
Peço que, se se quiserem ralar por minha causa,
Que não se ralem.
Se assim aconteceu, assim está certo.

Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos,
Eles lá terão a sua beleza, se forem belos.
Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir,
Porque as raízes podem estar debaixo da terra
Mas as flores florescem ao ar livre e à vista.
Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir.

Se eu morrer muito novo, oiçam isto:
Nunca fui senão uma criança que brincava.
Fui gentio como o sol e a água,
De uma religião universal que só os homens não têm.
Fui feliz porque não pedi cousa nenhuma,
Nem procurei achar nada,
Nem achei que houvesse mais explicação
Que a palavra explicação não ter sentido nenhum.

Não desejei senão estar ao sol ou à chuva —
Ao sol quando havia sol
E à chuva quando estava chovendo (E nunca a outra cousa),
Sentir calor e frio e vento,
E não ir mais longe.

Uma vez amei, julguei que me amariam,
Mas não fui amado.
Não fui amado pela única grande razão —
Porque não tinha que ser.

Consolei-me voltando ao sol e à chuva,
E sentando-me outra vez à porta de casa.
Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados
Como para os que o não são.
Sentir é estar distraído.

6.4.11

A MÁSCARA


Esta luz animada e desprendida –
Duma longínqua estrela misteriosa
Que, vindo reflectir-se em nosso rosto,
Acende nele estranha claridade;
Esta lâmpada oculta, em nossa máscara
Tornada transparente e radiante
De alegria, de dor ou desespero
E de outros sentimentos emanados
Do coração dum anjo ou dum demónio;
Este retrato ideal e verdadeiro,
Composto de alma e corpo e de que somos
A trágica moldura, errando à sorte,
E ela, é ela, a nossa aparição,
Feita de estrelas, sombras, ventanias
E séculos sem fim, surgindo, enfim,
Cá fora, sobre a Terra, à luz do Sol.

Teixeira de Pascoaes

24.2.11

Meditação Anciã




Aqui eu fui feliz aqui fui terra
aqui fui tudo quanto em mim se encerra
aqui me senti bem aqui o vento veio
aqui gostei de gente e tive mãe
em cada árvore e até em cada folha
aqui enchi o peito e mesmo até desfeito
eu fui aquele que da vida vil se orgulha
Aqui fiquei em tudo aquilo em que passei
um avião um riso uns olhos uma luz
eu fui aqui aquilo tudo até a que me opus



Ruy Belo
Toda a Terra

18.2.11

Lírio roxo


Viajei por toda a Terra
desde o norte até ao sul;
em toda a parte do mundo
vi mar verde e céu azul.
..............................
Em toda a parte vi flores
romperem do pó do chão
universais, como as dores
do mundo
que em toda a parte se dão
Vi sempre estrelas serenas
e as ondas morrendo em espuma
Todo o Sol um Sol apenas,
E a Lua sempre só uma.
Diferente de quanto existe
só a dor que me reparte.
Enquanto em mim morro triste,
Nasço alegre em toda a parte.
António Gedeão

17.2.11

Pedras da calçada


Paulo Gonzo

Composição: letra de Jorge Palma / música de Paulo Gonzo e Luís Oliveira

O suspeito foi calado
Não tendo as provas na mão
Não sabemos por que fado
Estando longe dele, então

Não teve companhia,
E nem reclamar ninguém,
Não chegou a ser refém,
Esteve ausente por um dia.

É nas pedras da calçada,
Que a canção nos sai melhor,
É nas pedras da calçada,
Que o desejo abafa a dor

Ofereceste-me uma rosa,
Quanto vale ao fim da vida?
Vale a voz silenciosa,
Vale a testa adormecida.

É nas pedras da calçada,
Que a canção nos sai melhor,
É nas pedras da calçada,
Que o desejo abafa a dor.

15.2.11

Soluço à vista de Olivença

Alentejo!
Minha Terra total! Meu Portugal aberto
Eternamente incerto
Nas fronteiras,no tempo e nas canseiras

Sombras desfeitas
Praças fortificadas

Minhas insatisfeitas correrias
A contar no franzido das lavradas

As rugas tatuadas
No rosto dos meus dias!

Miguel Torga

Juromenha,4 de Outubro de 1976

Diário XII-Pag.160

13.2.11

Da Oração



Doce quietação de quem vos ama,
Em serviços, Senhor, que tanto quanto
Amado sois, tão longe o fim de tanto,
Subindo mais, e mais, mais se derrama:

Ardendo por arder em viva chama
De amor do vosso amor, a voz levanto;
Sinto, suspiro, choro, colho, e planto
Ao som doutra suave que me chama.

Onde se vai, Senhor, quem vos ofende?
Donde levais, Deus meu, a quem vos segue?
Onde fugir se pode uma de duas?

Morto por quem o mata que pretende,
Ou que extremos de amor há que nos negue
Quem culpas nossas chama ofensas suas?


Frei Agostinho da Cruz

(1540-1619)

9.2.11

Noitinha


A noite sobre nós se debruçou...
Minha alma ajoelha, põe as mãos e ora!
O luar, pelas colinas, nesta hora,
É água dum gomil que se entornou...

Não sei quem tanta pérola espalhou!
Murmura alguém pelas quebradas fora...
Flores do campo, humildes, mesmo agora.
A noite, os olhos brandos, lhes fechou...

Fumo beijando o colmo dos casais...
Serenidade idílica de fontes,
E a voz dos rouxinóis nos salgueirais...

Tranquilidade... calma... anoitecer...
Num êxtase, eu escuto pelos montes
O coração das pedras a bater...

Florbela Espanca, in "Charneca em Flor

8.2.11

CREPUSCULAR


Há no ambiente um murmúrio de queixume,
De desejos de amor, dais comprimidos...
Uma ternura esparsa de balidos,
Sente-se esmorecer como um perfume.

As madressilvas murcham nos silvados
E o aroma que exalam pelo espaço,
Tem delíquios de gozo e de cansaço,
Nervosos, femininos, delicados.

Sentem-se espasmos, agonias dave,
Inapreensíveis, mínimas, serenas...
--- Tenho entre as mãos as tuas mãos pequenas,
O meu olhar no teu olhar suave.

As tuas mãos tão brancas danemia...
Os teus olhos tão meigos de tristeza...
--- É este enlanguescer da natureza,
Este vago sofrer do fim do dia.

CAMILO PESSANHA

30.1.11

Não sei



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Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que sogue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo : "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu

Alberto Caeiro

18.1.11

A lenda da fonte




Domingos Silva
Repertório de Natalino Duarte

Maria do Monte
Nascida e criada na encruzilhada
Que fica defronte da fonte sagrada
A lenda é antiga, mas há quem a conte
Que descia o monte, uma rapariga
P'ra beber na fonte

E àquela hora, por ela marcada de noite ou de dia
O Chico da Nora, na encruzilhada esperava a Maria
Seguiam depois, bem juntos os dois ao longo da estrada
Matar de desejos a sede com beijos, na fonte sagrada


Mas um certo dia
Como era esperada, na encruzilhada
Não veio a Maria á hora marcada
Seus olhos divinos, p'ra sempre fechou
A aldeia rezou, tocaram os sinos
E a fonte secou

E àquela hora, por ela marcada de noite ou de dia
O Chico da Nora, na encruzilhada esperava a Maria
Mas oh Santo Deus, escureceram-se os céus, finou-se a beldade
E diz-se no monte, que a velhinha fonte secou de saudade




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Quero só trazer à memória o que me dá esperança...

Hino da Restauração da Independência



A PORTUGUESA