5.5.07

mesmo de noite




1. Aquela eterna fonte está escondida,mas bem sei onde tem sua guarida,mesmo de noite.
2. Sua origem não a sei, pois não a tem,Mas sei que toda a origem dela vem,mesmo de noite.
3. Sei que não pode haver coisa tão bela,E que os céus e a terra bebem dela,mesmo de noite.
4. Eu sei que nela o fundo não se pode achar,E que ninguém pode nela a vau passar,mesmo de noite.
5. Sua claridade nunca é obscurecida,e sei que toda a luz dela é nascida,mesmo de noite.
6. Sei que tão caudalosas são suas correntes,Que céus e infernos regam, e as gentes,mesmo de noite.
7. A corrente que desta fonte vemÉ forte e poderosa, eu sei-o bem,mesmo de noite.
8. A corrente que destas duas procede,Sei que nenhuma delas a precede,mesmo de noite.
9. Aquela eterna fonte está escondidaNeste Pão Vivo para dar-nos vida,mesmo de noite.
10. De lá está chamando as criaturas,Que nela se saciam às escuras,mesmo de noite.
11. Aquela viva fonte que desejo,Neste Pão de vida já a vejo,mesmo de noite.

S.João da Cruz

25.3.07

E pedi mais infinito!


Foi quando compreendi
Que nada me dariam do infinito que pedi,
-Que ergui mais alto o meu grito
E pedi mais infinito!

José Régio

14.3.07

Deus



COMO É BOM SABER QUE EXISTE UM DEUS

QUE COM SEU AMOR INFINITO

PERDOA OS PECADOS MEUS

OH! MEU DEUS,SOU PEQUENINA

APRENDO MAS NÃO PRATICO TUDO

O QUE O SENHOR ME ENSINA

QUIZERA SER UMA SANTA

ATENDER AOS SEUS DESEJOS

MAS SOU PEQUENA MEU DEUS

TENHO TODOS OS DEFEITOSE

NO MEU PENSAR PEQUENO

VOCE ME FEZ DESSE JEITO

DEUS,SABES QUE SOU PEQUENA

ISSO NÃO LHE CAUSA ESPANTO

POR ISSO ME CARREGAS

NUMA DOBRA DO TEU MANTO Cassiamaral

16.2.07

Eu, etiqueta...


Em minha calça está grudado um nome
/que não é meu de batismo ou de cartório,
/um nome... estranho. /
Meu blusão traz lembrete de bebida /
que jamais pus na boca, nesta vida. /Em minha camiseta, a marca de cigarro
/que não fumo, até hoje não fumei. /
Minhas meias falam de produto /
que nunca experimentei /
mas são comunicados a meus pés.

Meu tênis é proclama colorido /de alguma coisa não provada
/por este provador de idade.
/Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
/minha gravata e cinto e escova e pente, /meu copo, minha xícara, /minha toalha de banho e sabonete,
/meu isso, meu aquilo,
/desde a cabeça até o bico dos sapatos,
/são mensagens,
/letras falantes,
/gritos visuais, /
ordem de uso,
abuso, reincidência, /
costume, hábito, premência, /
indispensabilidade, /
e fazem de mim homem-anúncio itinerante, /
escravo da matéria anunciada.

Estou, estou na moda. /
É doce estar na moda, ainda que a moda /
seja negar minha identidade, /
trocá-la por mil, açambarcando /
todas as marcas registradas, /
todos os logotipos de mercado.
Com que inocência demito-me de ser
/eu que antes era e me sabia /tão diverso de outros, tão mim-mesmo, /ser pensante, sentinte e solitário /com outros seres diversos e conscientes /de sua humana invencível condição.;

Agora sou anúncio, /ora vulgar, ora bizarro, /em língua nacional ou em qualquer língua /(qualquer, principalmente). /E nisto me comprazo, tiro glória /de minha anulação. /Não sou - vê lá - anúncio contratado. /Eu é que mimosamente pago /para anunciar, para vender /em bares festas praias pérgulas piscinas, /e bem à vista exibo esta etiqueta /global no corpo que desiste /de ser veste e sandália de uma essência /tão viva, independente, /que moda ou suborno algum compromete.;

Onde terei jogado fora /meu gosto e capacidade de escolher, /minhas idiossincrasias tão pessoais, /tão minhas que no rosto se espelhavam, /e cada gesto, cada olhar, /cada vinco de roupa /resumia uma estética? /Hoje sou costurado, sou tecido, /sou gravado de forma universal, /asio de estamparia, não de casa, /da vitrine me tiram, me recolocam, /objeto pulsante mas objeto /que se oferece como signo dos outros /objetos estáticos, tarifados.

Por me ostentar assim, tão orgulhoso /de ser não eu, mas artigo industrial, /peço que meu nome retifiquem. /Já não me convém o título de homem, /meu nome novo é coisa. /Eu sou a coisa, coisamente.;


Drumond de Andrade

Tarde,Te amei


Tarde te amei, Beleza antiga e tão nova,tarde te amei...

.Estavas dentro de mim e eu estava fora...

Estavas comigo e eu não estava contigo......

Tu chamaste-me, gritaste,e venceste a minha surdez.

Tu mostraste a tua luz e a tua claridade expulsou a minha cegueira.

Tu espalhaste o teu perfume, eu respirei-o

E suspiro por ti.

Eu saboreei-te,tenho fome e sede de ti

Tu tocaste-me

E eu queimo do desejo da tua paz.


Santo Agostinho

6.2.07

À Virgem Santissima



Cheia de Graça, Mãe de Misericórdia.
Num sonho todo feito de incerteza,
De noturna e indizível ansiedade,
É que eu vi teu olhar de piedade

E (mais que piedade) de tristeza...
Não era o vulgar brilho da beleza,
Nem o ardor banal da mocidade...
Era outra luz, era outra suavidade,

Que até nem sei se as há na natureza...
Um místico sofrer... uma ventura
Feita só do perdão, só ternura
E da paz da nossa hora derradeira...

Ó visão, visão triste e piedosa!
Fita-me assim calada, assim chorosa...
E deixa-me sonhar a vida inteira!

Antero de Quental

31.1.07

ARIANE

Ariane é um navio.
Tem mastros, velas e bandeira à proa,
E chegou num dia branco, frio,
A este rio Tejo de Lisboa.

Carregado de Sonho, fundeou
Dentro da claridade destas grades...
Cisne de todos, que se foi, voltou
Só para os olhos de quem tem saudades...

Foram duas fragatas ver quem era
Um tal milagre assim: era um navio
Que se balança ali à minha espera
Entre as gaivotas que se dão no rio.



Mas eu é que não pude ainda por meus passos
Sair desta prisão em corpo inteiro,
E levantar âncora, e cair nos braços
De Ariane, o veleiro.

MIGUEL TORGA
Prisão do Aljube - Lisboa, 1 Jan 1940

13.1.07

ventos que nos chamam



nos vendavais da vida...

12.1.07

CHAMO-TE


Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio
E suportar é o tempo mais comprido.
Peço-Te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só dos teus olhares me purifique e acabe.
Há muitas coisas que eu quero ver.
Peço-Te que sejas o presente.
Peço-Te que inundes tudo.
E que o teu reino antes do tempo venha.
E se derrame sobre a Terra
Em primavera feroz
precipitado.
Sophia de Mello Breyner

7.1.07

as ondas


As ondas quebravam uma a uma
Eu estava só com a areia e com a espuma
Do mar que cantava só para mim.



Sophia de Mello Breyner Andresen

18.11.06

árvores do Alentejo


Horas mortas... Curvada aos pés do Monte
A planície é um brasido e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a benção duma fonte!

E quando, manhã alta, o sol posponte
A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!

Árvores! Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!

Árvores! Não choreis! Olhai e vede:---
Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água!

Florbela Espanca

10.11.06

Gosto de ouvir


Gosto de ouvir o português do Brasil

Onde as palavras recuperam sua substância total

Concretas com frutos nítidos como pássaros

Gosto de ouvir a palavra com suas sílabas todas

Sem perder sequer um quinto de vogal


Sophia de Mello Breyner Andersen

5.11.06

Na mão de Deus...



Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.


Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despôjo vão,
Depus do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.


Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,


Selvas, mares, areias do deserto...
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!


Antero de Quental

21.10.06

manhã ansiada


Não mais as pinturas ao cair da tarde
Não mais as histórias mil vezes ciciadas
não mais os passeios,mão na mão,
pelos lugares simples,modestos,mas calorosos
Não mais as descobertas,a ternura,
a pátria.a doce lingua

Até quando,Babilónia
terra desolada,forçarás o exílio ?


Saúdo-te,
oh manhã ansiada do regresso!

MJ

3.4.06

Aquela triste




Aquela triste e leda madrugada,
Cheia toda de mágoa e de piadade,
Enquanto houver no mundo saudade
Quero que seja sempre celebrada.

Ela só, quando amena e marchetada
Saía, dando ao mundo claridade,
Viu apartar-se de uma outra vontade,
Que nunca poderá ver-se apartada.

Ela só viu as lágrimas em fio.
Que de uns e de outros olhos derivadas,
Se acrescentaram em grande e largo rio.

Ela ouviu as palavras magoadas
Que puderam tomar o fogo frio
E dar descanso às almas condenadas.

Luís de Camões

7.3.06

tecer...


Quando tudo se disse,
nada mais resta senão agir a palavra.


Denunciar as consequências do cerco que nos rodeia,
que vai devastar tudo, que possivelmente está minando tudo.


E dizer que, contra o cerco, não há senão uma solução:
retomar os gestos quotidianos:
semear, plantar, construir,edificar, tecer.

Maria de Lourdes Pintasilgo

2.3.06

águas claras


Ó rio de águas claras
que vais correndo p'ró mar
não contes as minhas penas
tem pena do meu penar.
Júlio Diniz

25.2.06

VOLTAREI



Voltarei à penumbra fresca da IgrejaAncestral, silenciosíssima e vazia.
Aonde está pousado o teu altar:
Doce Mãe Maria...
E ajoelhar-me-ei,
E fecharei os olhos sem pensar...
Que a minha oração nada mais seja!
Basta descansar.
Cristovam Pavia

20.2.06

MAGNIFICAT


Quando é que passará esta noite interna, o universo,
E eu, a minha alma, terei o meu dia?
Quando é que despertarei de estar acordado?
Não sei. O sol brilha alto,
Impossível de fitar.
As estrelas pestanejam frio,
Impossíveis de contar.
O coração pulsa alheio,
Impossível de escutar.
Quando é que passará este drama sem teatro,
Ou este teatro sem drama,
E recolherei a casa?
Onde? Como? Quando?
Gato que me fitas com olhos de vida, quem tens lá no fundo?
É esse! É esse!
Esse mandará como Josué parar o sol e eu acordarei;
E então será dia.
Sorri, dormindo, minha alma!
Sorri, minha alma, será dia!

Fernando Pessoa

5.2.06

Cântico Negro




"Vem por aqui" --- dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom se eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui"!Eu olho-os com olhos lassos,(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.---
Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe.
Não, não vou por aí!
Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: "vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
C omo farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis machados, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,---
Sei que não vou por aí.
José Régio

Quero só trazer à memória o que me dá esperança...

Hino da Restauração da Independência



A PORTUGUESA