28.4.08
5.4.08
SÓ
Só
Não fui, na infância, como os outros
e nunca vi como os outros viam.
Minhas paixões eu não podia
tirar de fonte igual à deles;
e era outra a origem da tristeza,
e era outro o canto, que acordava
o coração para a alegria.
Tudo o que amei, amei sozinho.
Assim, na minha infância, na alba
da tormentosa vida, ergueu-se,
no bem, no mal, de cada abismo,
a encadear-me, o meu mistério.
Veio dos rios, veio da fonte,
da rubra escarpa da montanha,
do sol, que todo me envolvia
em outonais clarões dourados;
e dos relâmpagos vermelhos
que o céu inteiro incendiavam,
e do trovão, da tempestade,
daquela nuvem que se alterava,
só, no amplo azul do céu puríssimo,
como um demônio, ante meus olhos.
Edgar Allan Poe
Não fui, na infância, como os outros
e nunca vi como os outros viam.
Minhas paixões eu não podia
tirar de fonte igual à deles;
e era outra a origem da tristeza,
e era outro o canto, que acordava
o coração para a alegria.
Tudo o que amei, amei sozinho.
Assim, na minha infância, na alba
da tormentosa vida, ergueu-se,
no bem, no mal, de cada abismo,
a encadear-me, o meu mistério.
Veio dos rios, veio da fonte,
da rubra escarpa da montanha,
do sol, que todo me envolvia
em outonais clarões dourados;
e dos relâmpagos vermelhos
que o céu inteiro incendiavam,
e do trovão, da tempestade,
daquela nuvem que se alterava,
só, no amplo azul do céu puríssimo,
como um demônio, ante meus olhos.
Edgar Allan Poe
20.2.08
de Augusto Gil
O PASSEIO DE SANTO ANTÓNIO
Saíra Santo António do convento
a dar o seu passeio costumado
e a decorar num tom rezado e lento
um cândido sermão sobre o pecado.
Andando,andando sempre, repetia
o divino sermão piedoso e brando
e nem notou que a tarde esmorecia,
que vinha a noite plácida baixando...
................................................................
O luar, um luar claríssimo nasceu.
Num raio dessa linda claridade,
o Menino Jesus baixou do céu,
...............................................................
Perto, uma bica de água murmurante
juntava o seu murmúrio ao dos pinhais.
Os rouxinóis ouviam-se distante.
O luar, mais alto, iluminava mais.
De braço dado para a fonte vinha
um par de noivos todo satisfeito.
Ela trazia ao ombro a cantarinha,
ele trazia o coração no peito !
Sem suspeitarem de que alguém os visse,
trocaram beijos, ao luar tranquilo.
O Menino, porém, ouviu e disse:
_ Ó Frei António, o que foi aquilo?
O Santo, erguendo a manga do burel
para tapar o noivo e a namorada,
mentiu com a voz doce como omel:
_ Não sei que fosse.Eu cá não ouvi nada...
Uma risada límpida e sonora
vibrou, em notas de oiro pelo caminho.
_ Ouviste ,Frei António ? Ouviste agora?
_Ouvi,Senhor,ouvi.É um passarinho...
_ Tu não estás com a cabeça boa!
Um passarinho a cantar assim?
E o pobre Santo António de Lisboa
calou~se, embaraçado, mas por fim.
corado, como as vestes dos cardeais,
achou esta saída redentora :
Se o Menino Jesus pergunta mais,
queixo-me a sua Mãe, Nossa Senhora .
(Imagem protectora do Regimento de Infantaria n.º 19, que tinha o seu quartel em Cascais desde meados do século XVII. A imagem do santo acompanhou o regimento de Cascais durante as campanhas da Guerra Peninsular, sendo por isso que ostenta ao peito a medalha da Guerra Peninsular. Santo António tinha o posto de tenente-coronel no regimento, servindo o seu soldo para ajuda aos soldados doentes. A festa do Santo comemora-se em 13 de Junho. - no Portal da História - )
9.2.08

O TEU OLHAR
Quando fito o teu olhar,
Duma tristeza fatal,
Dum tão íntimo sonhar,
Penso logo no luar
Bendito de Portugal!
O mesmo tom de tristeza,
O mesmo vago sonhar,
Que me traz a alma presa
Às festas da Natureza
E à doce luz desse olhar!
O mesmo vago sonhar,
Que me traz a alma presa
Às festas da Natureza
E à doce luz desse olhar!
Se algum dia, por meu mal,
A doce luz me faltar
Desse teu olhar ideal,
Não se esqueça Portugal
De dizer ao seu luar
Que à noite, me vá depor
Na campa em que eu dormitar,
Essa tristeza, essa dor,
Essa amargura, esse amor,
Que eu lia no teu olhar!
Florbela Espanca
5.2.08
Entre mochos...
4.2.08
Natureza
2.2.08
Árvores do Alentejo
Árvores do Alentejo
Horas mortas... Curvada aos pés do Monte
A planície é um brasido e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a benção duma fonte!
E quando, manhã alta, o sol posponte
A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!
Árvores! Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!
Árvores! Não choreis! Olhai e vede:---
Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água!
Florbela Espanca
23.12.07

Nunca mais
A tua face será pura limpa e viva
Nem o teu andar como onda fugitivaSe poderá nos passos do tempo tecer.
E nunca mais darei ao tempo a minha vida.
Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
A luz da tarde mostra-me os destroços
Do teu ser.
Em breve a podridão
Beberá os teus olhos e os teus ossosT
omando a tua mão na sua mão.
Nunca mais amarei quem não possa viverSempre,
Porque eu amei como se fossem eternos
A glória, a luz e o brilho do teu ser.
Amei-te em verdade e transparência
E nem sequer me resta a tua ausência.
És um rosto de nojo e negação
E eu fecho os olhos para não te ver.
Nunca mais servirei senhor que possa morrer.
(Sophia de Mello Breyner)
(Sophia de Mello Breyner)
1.11.07
Porque eu amo-te, quer dizer, estou atento às coisas regulares e irregulares do mundo.
Ou também: eu envio o amor sob a forma de muitos olhos e ouvidos a explorar, a conhecer o mundo.
Porque eu amo-te, isto é, eu dou cabo da escuridão do mundo.
Porque tudo se escreve com a tua letra.
Fernando Assis Pacheco
28.8.07
Meu país desgraçado!...
E no entanto há Sol a cada cantoe não há Mar tão lindo noutro lado.
Nem há Céu mais alegre do que o nosso,nem pássaros, nem águas ..
.Meu país desgraçado!...
Por que fatal engano?
Que malévolos crimes teus direitos de berço violaram?
Meu Povo de cabeça pendida, mãos caídas,de olhos sem fé— busca, dentro de ti, fora de ti, aonde a causa da miséria se te esconde.
E em nome dos direitosque te deram a terra,
o Sol, o Mar,fere-a sem dó
com o lume do teu antigo olhar.
Alevanta-te, Povo!Ah!, visses tu,
nos olhos das mulheres,
a calada censura
que te reclama filhos mais robustos!
Meu Povo anémico e triste,meu Pedro
Sem sem forças, sem haveres!—
olha a censura muda das mulheres!
Vai-te de novo ao Mar!
Reganha tuas barcas, tuas forças
e o direito de amar e fecundaras
que só por Amor te não desprezam!
Sebastião da Gama
29.6.07
21.6.07
A paz sem vencedores nem vencidos

Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Que o tempo que nos deste seja um novo
Recomeço de esperança e de justiça.
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Erguei o nosso ser à transparência
Para podermos ler melhor a vida
Para entendermos vosso mandamento
Para que venha a nós o vosso reino
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Fazei Senhor que a paz seja de todos
Dai-nos a paz que nasce da verdade
Dai-nos a paz que nasce da justiça
Dai-nos a paz chamada liberdade
Dai-nos Senhor paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Sophia de Mello Breyner Andersen
A paz sem vencedor e sem vencidos
Que o tempo que nos deste seja um novo
Recomeço de esperança e de justiça.
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Erguei o nosso ser à transparência
Para podermos ler melhor a vida
Para entendermos vosso mandamento
Para que venha a nós o vosso reino
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Fazei Senhor que a paz seja de todos
Dai-nos a paz que nasce da verdade
Dai-nos a paz que nasce da justiça
Dai-nos a paz chamada liberdade
Dai-nos Senhor paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Sophia de Mello Breyner Andersen
5.5.07
mesmo de noite

1. Aquela eterna fonte está escondida,mas bem sei onde tem sua guarida,mesmo de noite.
2. Sua origem não a sei, pois não a tem,Mas sei que toda a origem dela vem,mesmo de noite.
3. Sei que não pode haver coisa tão bela,E que os céus e a terra bebem dela,mesmo de noite.
4. Eu sei que nela o fundo não se pode achar,E que ninguém pode nela a vau passar,mesmo de noite.
5. Sua claridade nunca é obscurecida,e sei que toda a luz dela é nascida,mesmo de noite.
6. Sei que tão caudalosas são suas correntes,Que céus e infernos regam, e as gentes,mesmo de noite.
7. A corrente que desta fonte vemÉ forte e poderosa, eu sei-o bem,mesmo de noite.
8. A corrente que destas duas procede,Sei que nenhuma delas a precede,mesmo de noite.
2. Sua origem não a sei, pois não a tem,Mas sei que toda a origem dela vem,mesmo de noite.
3. Sei que não pode haver coisa tão bela,E que os céus e a terra bebem dela,mesmo de noite.
4. Eu sei que nela o fundo não se pode achar,E que ninguém pode nela a vau passar,mesmo de noite.
5. Sua claridade nunca é obscurecida,e sei que toda a luz dela é nascida,mesmo de noite.
6. Sei que tão caudalosas são suas correntes,Que céus e infernos regam, e as gentes,mesmo de noite.
7. A corrente que desta fonte vemÉ forte e poderosa, eu sei-o bem,mesmo de noite.
8. A corrente que destas duas procede,Sei que nenhuma delas a precede,mesmo de noite.
9. Aquela eterna fonte está escondidaNeste Pão Vivo para dar-nos vida,mesmo de noite.
10. De lá está chamando as criaturas,Que nela se saciam às escuras,mesmo de noite.
11. Aquela viva fonte que desejo,Neste Pão de vida já a vejo,mesmo de noite.
S.João da Cruz
10. De lá está chamando as criaturas,Que nela se saciam às escuras,mesmo de noite.
11. Aquela viva fonte que desejo,Neste Pão de vida já a vejo,mesmo de noite.
S.João da Cruz
25.3.07
E pedi mais infinito!
14.3.07
Deus
COMO É BOM SABER QUE EXISTE UM DEUS
QUE COM SEU AMOR INFINITO
PERDOA OS PECADOS MEUS
OH! MEU DEUS,SOU PEQUENINA
APRENDO MAS NÃO PRATICO TUDO
O QUE O SENHOR ME ENSINA
QUIZERA SER UMA SANTA
ATENDER AOS SEUS DESEJOS
MAS SOU PEQUENA MEU DEUS
TENHO TODOS OS DEFEITOSE
NO MEU PENSAR PEQUENO
VOCE ME FEZ DESSE JEITO
DEUS,SABES QUE SOU PEQUENA
ISSO NÃO LHE CAUSA ESPANTO
SÓ POR ISSO ME CARREGAS
NUMA DOBRA DO TEU MANTO Cassiamaral
16.2.07
Eu, etiqueta...
Em minha calça está grudado um nome
/que não é meu de batismo ou de cartório,
/um nome... estranho. /
Meu blusão traz lembrete de bebida /
que jamais pus na boca, nesta vida. /Em minha camiseta, a marca de cigarro
/que não fumo, até hoje não fumei. /
Minhas meias falam de produto /
que nunca experimentei /
mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido /de alguma coisa não provada
/por este provador de idade.
/Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
/minha gravata e cinto e escova e pente, /meu copo, minha xícara, /minha toalha de banho e sabonete,
/meu isso, meu aquilo,
/desde a cabeça até o bico dos sapatos,
/são mensagens,
/letras falantes,
/gritos visuais, /
ordem de uso,
abuso, reincidência, /
costume, hábito, premência, /
indispensabilidade, /
e fazem de mim homem-anúncio itinerante, /
escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda. /
É doce estar na moda, ainda que a moda /
seja negar minha identidade, /
trocá-la por mil, açambarcando /
todas as marcas registradas, /
todos os logotipos de mercado.
Com que inocência demito-me de ser
/eu que antes era e me sabia /tão diverso de outros, tão mim-mesmo, /ser pensante, sentinte e solitário /com outros seres diversos e conscientes /de sua humana invencível condição.;
Agora sou anúncio, /ora vulgar, ora bizarro, /em língua nacional ou em qualquer língua /(qualquer, principalmente). /E nisto me comprazo, tiro glória /de minha anulação. /Não sou - vê lá - anúncio contratado. /Eu é que mimosamente pago /para anunciar, para vender /em bares festas praias pérgulas piscinas, /e bem à vista exibo esta etiqueta /global no corpo que desiste /de ser veste e sandália de uma essência /tão viva, independente, /que moda ou suborno algum compromete.;
Onde terei jogado fora /meu gosto e capacidade de escolher, /minhas idiossincrasias tão pessoais, /tão minhas que no rosto se espelhavam, /e cada gesto, cada olhar, /cada vinco de roupa /resumia uma estética? /Hoje sou costurado, sou tecido, /sou gravado de forma universal, /asio de estamparia, não de casa, /da vitrine me tiram, me recolocam, /objeto pulsante mas objeto /que se oferece como signo dos outros /objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso /de ser não eu, mas artigo industrial, /peço que meu nome retifiquem. /Já não me convém o título de homem, /meu nome novo é coisa. /Eu sou a coisa, coisamente.;
Drumond de Andrade
/que não é meu de batismo ou de cartório,
/um nome... estranho. /
Meu blusão traz lembrete de bebida /
que jamais pus na boca, nesta vida. /Em minha camiseta, a marca de cigarro
/que não fumo, até hoje não fumei. /
Minhas meias falam de produto /
que nunca experimentei /
mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido /de alguma coisa não provada
/por este provador de idade.
/Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
/minha gravata e cinto e escova e pente, /meu copo, minha xícara, /minha toalha de banho e sabonete,
/meu isso, meu aquilo,
/desde a cabeça até o bico dos sapatos,
/são mensagens,
/letras falantes,
/gritos visuais, /
ordem de uso,
abuso, reincidência, /
costume, hábito, premência, /
indispensabilidade, /
e fazem de mim homem-anúncio itinerante, /
escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda. /
É doce estar na moda, ainda que a moda /
seja negar minha identidade, /
trocá-la por mil, açambarcando /
todas as marcas registradas, /
todos os logotipos de mercado.
Com que inocência demito-me de ser
/eu que antes era e me sabia /tão diverso de outros, tão mim-mesmo, /ser pensante, sentinte e solitário /com outros seres diversos e conscientes /de sua humana invencível condição.;
Agora sou anúncio, /ora vulgar, ora bizarro, /em língua nacional ou em qualquer língua /(qualquer, principalmente). /E nisto me comprazo, tiro glória /de minha anulação. /Não sou - vê lá - anúncio contratado. /Eu é que mimosamente pago /para anunciar, para vender /em bares festas praias pérgulas piscinas, /e bem à vista exibo esta etiqueta /global no corpo que desiste /de ser veste e sandália de uma essência /tão viva, independente, /que moda ou suborno algum compromete.;
Onde terei jogado fora /meu gosto e capacidade de escolher, /minhas idiossincrasias tão pessoais, /tão minhas que no rosto se espelhavam, /e cada gesto, cada olhar, /cada vinco de roupa /resumia uma estética? /Hoje sou costurado, sou tecido, /sou gravado de forma universal, /asio de estamparia, não de casa, /da vitrine me tiram, me recolocam, /objeto pulsante mas objeto /que se oferece como signo dos outros /objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso /de ser não eu, mas artigo industrial, /peço que meu nome retifiquem. /Já não me convém o título de homem, /meu nome novo é coisa. /Eu sou a coisa, coisamente.;
Drumond de Andrade
Tarde,Te amei

Tarde te amei, Beleza antiga e tão nova,tarde te amei...
.Estavas dentro de mim e eu estava fora...
Estavas comigo e eu não estava contigo......
Tu chamaste-me, gritaste,e venceste a minha surdez.
Tu mostraste a tua luz e a tua claridade expulsou a minha cegueira.
Tu espalhaste o teu perfume, eu respirei-o
E suspiro por ti.
Eu saboreei-te,tenho fome e sede de ti
Tu tocaste-me
E eu queimo do desejo da tua paz.
Santo Agostinho
6.2.07
À Virgem Santissima
Cheia de Graça, Mãe de Misericórdia.
Num sonho todo feito de incerteza,
De noturna e indizível ansiedade,
É que eu vi teu olhar de piedade
E (mais que piedade) de tristeza...
Não era o vulgar brilho da beleza,
Nem o ardor banal da mocidade...
Era outra luz, era outra suavidade,
Que até nem sei se as há na natureza...
Um místico sofrer... uma ventura
Feita só do perdão, só ternura
E da paz da nossa hora derradeira...
Um místico sofrer... uma ventura
Feita só do perdão, só ternura
E da paz da nossa hora derradeira...
Ó visão, visão triste e piedosa!
Fita-me assim calada, assim chorosa...
E deixa-me sonhar a vida inteira!
Antero de Quental
31.1.07
ARIANE
Ariane é um navio.
Tem mastros, velas e bandeira à proa,
E chegou num dia branco, frio,
A este rio Tejo de Lisboa.
Carregado de Sonho, fundeou
Dentro da claridade destas grades...
Cisne de todos, que se foi, voltou
Só para os olhos de quem tem saudades...
Foram duas fragatas ver quem era
Um tal milagre assim: era um navio
Que se balança ali à minha espera
Entre as gaivotas que se dão no rio.

Mas eu é que não pude ainda por meus passos
Sair desta prisão em corpo inteiro,
E levantar âncora, e cair nos braços
De Ariane, o veleiro.
MIGUEL TORGA
Prisão do Aljube - Lisboa, 1 Jan 1940
Tem mastros, velas e bandeira à proa,
E chegou num dia branco, frio,
A este rio Tejo de Lisboa.
Carregado de Sonho, fundeou
Dentro da claridade destas grades...
Cisne de todos, que se foi, voltou
Só para os olhos de quem tem saudades...
Foram duas fragatas ver quem era
Um tal milagre assim: era um navio
Que se balança ali à minha espera
Entre as gaivotas que se dão no rio.

Mas eu é que não pude ainda por meus passos
Sair desta prisão em corpo inteiro,
E levantar âncora, e cair nos braços
De Ariane, o veleiro.
MIGUEL TORGA
Prisão do Aljube - Lisboa, 1 Jan 1940
13.1.07
Subscrever:
Mensagens (Atom)
Quero só trazer à memória o que me dá esperança...
Hino da Restauração da Independência
