29.9.15

as rosas bravas...

Floriram por engano as rosas bravas 
No Inverno: veio o vento desfolhá-las... 
Em que cismas, meu bem? Porque me calas 
As vozes com que há pouco me enganavas?

Castelos doidos! Tão cedo caístes!... 
Onde vamos, alheio o pensamento, 
De mãos dadas? Teus olhos, que um momento 
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!

E sobre nós cai nupcial a neve, 
Surda, em triunfo, pétalas, de leve 
Juncando o chão, na acrópole de gelos...

Em redor do teu vulto é como um véu! 
Quem as esparze — quanta flor! —, do céu, 
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?
Camilo Pessanha

23.1.15

Viagem

   É o vento que me leva.
O vento lusitano.
É este sopro humano
Universal
Que enfuna a inquietação de Portugal.
É esta fúria de loucura mansa
Que tudo alcança
Sem alcançar.
Que vai de céu em céu,
De mar em mar,
Até nunca chegar.
E esta tentação de me encontrar
Mais rico de amargura
Nas pausas da ventura
De me procurar...


Miguel Torga, in 'Diário XII'

29.9.14

O segredo do mar

O Segredo do Mar

A "Flor do Mar" avançando 
Navegava, navegava
Lá para onde se via
O vulto que ela buscava. 

Era tão grande, tão grande 
Que a vista toda tapava. 

E Bartolomeu erguido 
Aos marinheiros bradava 
Que ninguém tivesse medo 
Do gigante que ali estava. 

E mais perto agora estão 
Do que procurando vão! 

Bartolomeu que viu? 
Que descobriu o valente? 
- Que o gigante era um penedo 
que tinha forma de gente? 

Que era dantes o mar? Um quarto escuro 
Onde os meninos tinham medo de ir. 
Agora o mar é livre e é seguro 
E foi um português que o foi abrir. 

-- Afonso Lopes Vieira

21.3.14

Dá-me a tua mão.

Deixa que a minha solidão
prolongue mais a tua
— para aqui os dois de mãos dadas
nas noites estreladas,
a ver os fantasmas a dançar na lua.

Dá-me a tua mão, companheira,
até o Abismo da Ternura Derradeira.


José Gomes Ferreira, in “Poeta Militante I” 

5.12.13

Florbela Espanca sempre

14.11.13

O Cravo e o Manjerico



Num mercado de flores
Com rosas ,jasmins,amores
E mais que não qualifico,
Estava o cravo vaidoso
Alto,forte,vigoroso
E o modesto manjerico.




Começou o cravo a falar
O que eu vos vou contar:
-Como podes tu ,assim
Um manjerico miudinho
Nesse teu reles vasinho
Colocares-te ao pé de mim ?

Eu irei para um jarrão
Da China,e num salão
então serei admirado
E tu tão encolhidinho Sempre viverás sozinho
Sem mais ninguém a teu lado.

E o manjerico então falou
Mui docemente,mas acertou:
-Sim.és bonito,mas pensa agora
Que muito em breve murcharás
Essa beleza,oh! É fugaz
E logo então te deitam fora.
Eu irei para ‘ma casinha
Pequenina,pobrezinha,
Talvez de algum cavador
Mas onde serei regado
E com carinho tratado
Com ternura,com amor.

Quando o meu dono à tardinha
Chegar a casa e à cozinha
For pôr o alforge e o tarro,
-Que perfume ! Ele então diz.
-E assim eu serei feliz
No meu vasinho de barro.

Mariana Santos Rosado Pontes (93 anos)


Ei-los que partem


Ei-los que partem
novos e velhos
buscando a sorte
noutra paragens
noutra aragens
entre os povos
ei-los que partem
velhos e novos
Ei-los que partem
de olhos molhados
coração triste
e a saca às costas
esperança em riste
sonhos dourados
ei-los que partem
de olhos molhados
Virão um dia
ricos ou não
contando histórias
de lá longe
onde o suor
se fez pão
virão um dia
ou não.

 Manuel Freire

3.6.13

Voa


Voa passarinho, voa,
que gaiola é só maldade.
Livre, lá nos céus entoa
o cantar da liberdade.
Eliana Jimenez

28.12.12

Em mim...

Nasci...olhei para me ver
Era...já não sou
Em mim ficou
O que era antes de ser...
MJB

3.11.12

VIDA


Vida que não acaba de acabar-se,
Chegando já de vós a despedir-se,
Ou deixa por sentida de sentir-se,
Ou pode de imortal acreditar-se.

Vida que já não chega a terminar-se,
Pois chega já de vós a dividir-se.
Ou procura vivendo consumir-se,
Ou pretende matando eternizar-se.
 
O certo é, Senhor, que não fenece,
Antes no que padece se reporta,
Porque não se limite o que padece.

Mas, viver entre lágrimas, que importa?
Se  vida  que entre ausências permanece
É só viva ao pesar, ao gosto morta?
 Soror Violante do Céu ((1601-1693)
in «Cem  Poemas Portugueses no Feminino»,
Selec., Organiz. e introd. de José Fanha e José Jorge Letria


28.10.12

No país dos poemas tristes


Qualquer poema esquecido
precisa de uma réstia de sol
onde pousar a tristeza

Mas no país dos poemas tristes
a inércia dormente
deixou que roubassem o sol
E agora
os rios solidificam nos leitos
os animais são pedras
e as searas secam

Agora
no país dos poemas tristes
da sombra negra do céu
desprendem-se versos mortos
que os poetas recolhem
paulatinamente
para colocar entre as páginas brancas
de um livro por escrever

Talvez despertem um dia
ao som de Chopin
Fantasie-Impromptu, quem sabe?
Quando o sol for devolvido ao céu
e à poesia renascerem as asas

Lídia Borges

6.10.12

ACORDAI



Acordai
acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raíz

Acordai
acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras do mar
o mundo e os corações

Acordai
acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais
Acordai!


José Gomes Ferreira

22.6.12

...amargurada

Já o palor da madrugada
anunciava o novo dia
inda minha alma amargurada
ajoelhava e não dormia...


M.J.B.

24.5.12

ÉVORA


Évora! Ruas ermas sob os céus
Cor de violetas roxas... Ruas frades
Pedindo em triste penitência a Deus
Que nos perdoe as míseras vaidades!

Tenho corrido em vão tantas cidades!
E só aqui recordo os beijos teus,
E só aqui eu sinto que são meus
Os sonhos que sonhei noutras idades!

Évora!... O teu olhar... o teu perfil...
Tua boca sinuosa, um mês de Abril
Que o coração no peito me alvoroça!

...Em cada viela o vulto dum fantasma...
E a minha alma soturna escuta e pasma...
E sente-se passar menina-e-moça...

Florbela Espanca

11.4.12

O gato - Para a Ana

O gato, à sua janela,
ao Sol, que brilha fulgindo,
vai dormindo,
vai pensando
e vai sonhando:

- «Pelas noites de invernia,
quando o vento, num lamento
muito lento, muito longo,
muito fundo, de agonia,
ruge e muge,
e a chuva bate à janela,
nos vidros fina a tinir...,
ai com é bom,
ai como é bom dormir
ao serão, todo enroscado
ao pé do lume doirado,
fazendo ron-ron, ron-ron..."

-«Ó minha linda casinha,
tu és minha, muito minha,
nem há outra melhor que ela ...»

O gato, à sua janela,
ao Sol, que brilha fulgindo,
vai pensando,
vai dormindo
e vai sonhando:

- «Não tenho inveja a ninguém:
nem aos pássaros no ar
a voar,
nem aos cavalos saltando,
galopando,
nem as peixinhos no mar
a nadar;
não tenho inveja a ninguém,
aqui da minha janela
onde me sinto tão bem ...»

- «Ó minha linda casinha,
tu és minha, muito minha,
nem há outra melhor que ela ...» 

Afonso Lopes Vieira em "Animais nossos amigos" 


Dedicado à Ana e aos seus múltiplos felinos.

1.2.12

Noite de chuva


 Chuva... Que gotas grossas!... Vem ouvir:
Uma... duas... mais outra que desceu...
É Viviana, é Melusina a rir,
São rosas brancas dum rosal do céu...

Os lilases deixaram-se dormir...
Nem um frémito... a terra emudeceu...
Amor! Vem ver estrelas a cair:
Uma... duas... mais outra que desceu...

Fala baixo, juntinho ao meu ouvido,
Que essa fala de amor seja um gemido,
Um murmúrio, um soluço, um ai desfeito...

Ah, deixa à noite o seu encanto triste!
E a mim... o teu amor que mal existe,
Chuva a cair na noite do meu peito!
Florbela Espanca

1.12.11

Convite

(museu do brinquedo.Sintra)


Poesia é...

brincar com as palavras

como se brinca com bola, papagaio, pião

Só que bola, papagaio, pião

de tanto brincar se gastam.

As palavras não:

Quanto mais se brinca com elas,

mais novas ficam.

Como a água do ri

o que é água sempre nova.

Como cada dia

que é sempre um novo dia

. Vamos brincar de poesia?

José Paulo Paes

30.11.11

A boneca

(museu do brinquedo - Sintra)


Deixando a bola e a peteca,

Com que inda há pouco brincavam,

Por causa de uma boneca,

Duas meninas brigavam.

Dizia a primeira: “É minha!”

“É minha!” a outra gritava;

E nenhuma se continha,

Nem a boneca largava.

Quem mais sofria (coitada!)

Era a boneca. Já tinha

Toda a roupa estraçalhada,

E amarrotada a carinha.

Tanto puxaram por ela,

Que a pobre rasgou-se ao meio,

Perdendo a estopa amarela

Que lhe formava o recheio.

E, ao fim de tanta fadiga,

Voltando à bola e à peteca,

Ambas, por causa da briga,

Ficaram sem a boneca…

Olavo Bilac

1.5.11

Bóiam farrapos de sombra


Bóiam farrapos de sombra
Em torno ao que não sei ser.
É todo um céu que se escombra
Sem me o deixar entrever.

O mistério das alturas
Desfaz-se em ritmos sem forma
Nas desregradas negruras
Com que o ar se treva torna.

Mas em tudo isto, que faz
O universo um ser desfeito,
Guardei, como a minha paz,
A 'sp'rança, que a dor me traz,
Apertada contra o peito.

Fernando Pessoa

20.4.11

Se Eu Morrer Novo



Alberto Caeiro

Se eu morrer novo,
Sem poder publicar livro nenhum,
Sem ver a cara que têm os meus versos em letra impressa,
Peço que, se se quiserem ralar por minha causa,
Que não se ralem.
Se assim aconteceu, assim está certo.

Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos,
Eles lá terão a sua beleza, se forem belos.
Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir,
Porque as raízes podem estar debaixo da terra
Mas as flores florescem ao ar livre e à vista.
Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir.

Se eu morrer muito novo, oiçam isto:
Nunca fui senão uma criança que brincava.
Fui gentio como o sol e a água,
De uma religião universal que só os homens não têm.
Fui feliz porque não pedi cousa nenhuma,
Nem procurei achar nada,
Nem achei que houvesse mais explicação
Que a palavra explicação não ter sentido nenhum.

Não desejei senão estar ao sol ou à chuva —
Ao sol quando havia sol
E à chuva quando estava chovendo (E nunca a outra cousa),
Sentir calor e frio e vento,
E não ir mais longe.

Uma vez amei, julguei que me amariam,
Mas não fui amado.
Não fui amado pela única grande razão —
Porque não tinha que ser.

Consolei-me voltando ao sol e à chuva,
E sentando-me outra vez à porta de casa.
Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados
Como para os que o não são.
Sentir é estar distraído.

Quero só trazer à memória o que me dá esperança...

Hino da Restauração da Independência



A PORTUGUESA