22.7.09

O noivado do sepulcro


O Noivado do Sepulcro

Balada

Vai alta a lua! na mansão da morte
Já meia-noite com vagar soouu;
Que paz tranqüila; dos vaivéns da sorte
Só tem descanso quem ali baixou.

Que paz tranqüila!... mas eis longe, ao longe
Funérea campa com fragor rangeu;
Branco fantasma semelhante a um monge,
Dentre os sepulcros a cabeça ergueu.

Ergueu-se, ergueu-se!... na amplidão celeste
Campeia a lua com sinistra luz;
O vento geme no feral cipreste,
O mocho pia na mormórea cruz.

Ergueu-se, ergueu-se!... com sombrio espanto
Olhou em roda... não achou ninguém...
Por entre as campas, arrastando o manto,
Com lentos passos caminhou além.

Chegando perto duma cruz alçada,
Que entre os ciprestes alvejava ao fim,
Parou, sentou-se com a voz magoada
Os ecos tristes acordou assim:

"Mulher formosa, que adorei na vida,
E que na tumba não cessei de amar,
Por que atraiçoas, desleal, mentida,
O amor eterno que te ouvi jurar?

Amor! engano que na campa finda,
Que a morte despe da ilusão falaz:
Quem dentre os vivos se lembrara ainda
Do pobre morto que na terra jaz?

Abandonado neste chão repousa
Há já três dias, e não vens aqui...
Ai, quão pesada me tem sido a lousa
Sobre este peito que bateu por ti!

Ai qão pesada me tem sido!"e em meio
A fronte exausta lhe pendeu na mão,
E entre soluços arrancou do seio
Fundo suspiro de cruel paixão.

"Talvez que rindo dos prostestos nossos,
Gozes com outro d'infernal prazer;
E o olvido cobrirá meus ossos
Na fria terra sem vingança ter!"

— "Ó nunca, nunca!" de saudade infinita,
Responde um eco suspirando além...
— "Ó nunca, nunca!" repetiu ainda
Formosa virgem que em seus braços tem.

Cobrem-lhe as formas divinais, airosas.
Longas roupagens de nevado cor;
Singela c'roa de virgíneas rosas
Lhe cerca a fronte dum mortal palor.

"Não, não perdeste meu amor jurado:
Vês este peito? reina a morte aqui...
É já sem forças, ai de mim, gelado,
Mas ainda pulsa com amor por ti.

Feliz que pude acompanhar-te ao fundo
Da sepultura, sucumbindo à dor:
Deixei a vida... que importava o mundo,
O mundo em trevas sem a luz do amor?

Saudosa ao longe vês no céu a lua?"
— "Ó vejo sim... recordação fatal"
— Foi à luz dela que jurei ser tua
Durante a vida, e na mansão final.

Ó vem! se nunca te cingi ao peito,
Hoje o sepulcro nos reúne enfim...
Quero o repouso do teu frio leito,
Quero-te unido para sempre a mim!"

E ao som dos pios co cantor funéreo,
E à luz da lua de sinistro alvor,
Junto ao cruzeiro, sepulcral mistério
Foi celebrado, d'infeliz amor.

Quando risonho despontava o dia,
Já desse drama nada havia então,
Mais que uma tumba funeral vazia,
Quebrada a lousa por ignota mão.

Porém mais tarde, quando foi volvido
Das sepulturas o gelado pó,
Dois esqueletdos, um ao outro unido,
Foram achados num sepulcro só.

Soares de Passos
(ultra romantismo)

20.7.09

A criança


A criança,
Toda a criança
Seja de que raça for,
Seja negra, branca, vermelha, amarela,
Seja rapariga ou rapaz.
Fale que língua falar,
Acredite no que acreditar,
Pense o que pensar,
Tenha nascido onde fora,
Ela tem direito...

Amor,
Alimentação,
Casa,
Cuidados médicos,
O amor sereno de mãe e pai,
Ela vai poder
Rir,
Brincar,
Crescer,
Aprender a ser feliz...

Matilde Rosa Araújo

14.7.09

Oração de Todas as Horas




Agora,
que eu já não sei andar nas trevas,
não me roubes a Tua Mão, Senhor,
por piedade!
Voltar às trevas não sei,
e sem a Tua Mão não poderei
dar um só passo em tanta Claridade.

Pelas Tuas feridas minhas, pelas tristezas
de Tua Mãe, Jesus.
não me deixes, no meio desta Luz,
de pernas presas...

Não me deixes ficar
com o Caminho todo iluminado
e eu parado e tão cansado
como se fosse a andar ...

Sebastião da Gama


13.7.09

Em Busca


Ponho os olhos em mim, como se olhasse um estranho,
E choro de me ver tão outro, tão mudado…
Sem desvendar a causa, o íntimo cuidado
Que sofro do meu mal — o mal de que provenho.

Já não sou aquele Eu do tempo que é passado,
Pastor das ilusões perdi o meu rebanho,
Não sei do meu amor, saúde não na tenho,
E a vida sem saúde é um sofrer dobrado.

A minh’alma rasgou-ma o trágico Desgosto
Nas silvas do abandono, à hora do sol-posto,
Quando o azul começa a diluir-se em astros…

E à beira do caminho, até lá muito longe,
Como um mendigo só, como um sombrio monge,
Anda o meu coração em busca dos seus rastros…

José Duro


8.7.09

Cântico Negro

José Régio


"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!


Fado Falado


Fado Triste
Fado negro das vielas
Onde a noite quando passa
Leva mais tempo a passar
Ouve-se a voz
Voz inspirada de uma raça
Que mundo em fora nos levou
Pelo azul do mar
Se o fado se canta e chora
Também se pode falar

Mãos doloridas na guitarra
que desgarra dor bizarra
Mãos insofridas, mãos plangentes
Mãos frementes e impacientes
Mãos desoladas e sombrias
Desgraçadas, doentias
Quando à traição, ciume e morte
E um coração a bater forte

Uma história bem singela
Bairro antigo, uma viela
Um marinheiro gingão
E a Emília cigarreira
Que ainda tinha mais virtude
Que a própria Rosa Maria
Em dia de procissão
Da Senhora da Saúde

Os beijos que ele lhe dava
Trazia-os ele de longe
Trazia-os ele do mar
Eram bravios e salgados
E ao regressar à tardinha
O mulherio tagarela
De todo o bairro de Alfama
Cochichava em segredinho
Que os sapatos dele e dela
Dormiam muito juntinhos
Debaixo da mesma cama

Pela janela da Emília
Entrava a lua
E a guitarra
À esquina de uma rua gemia,
Dolente a soluçar.
E lá em casa:

Mãos amorosas na guitarra
Que desgarra dor bizarra
Mãos frementes de desejo
Impacientes como um beijo
Mãos de fado, de pecado
A guitarra a afagar
Como um corpo de mulher
Para o despir e para o beijar

Mas um dia,
Mas um dia santo Deus, ele não veio
Ela espera olhando a lua, meu Deus
Que sofrer aquele
O luar bate nas casas
O luar bate na rua
Mas não marca a sombra dele
Procurou como doida
E ao voltar da esquina
Viu ele acompanhado
Com outra ao lado, de braço dado
Gingão, feliz, levião
Um ar fadista e bizarro
Um cravo atrás da orelha
E preso à boca vermelha
O que resta de um cigarro
Lume e cinza na viela,
Ela vê, que homem aquele
O lume no peito dela
A cinza no olhar dele

E o ciume chegou como lume
Queimou, o seu peito a sangrar
Foi como vento que veio
Labareda atear, a fogueira aumentar
Foi a visão infernal
A imagem do mal que no bairro surgiu
Foi o amor que jurou
Que jurou e mentiu
Correm vertigens num grito
Direito ou maldito que há-de perder
Puxa a navalha, canalha
Não há quem te valha
Tu tens de morrer
Há alarido na viela
Que mulher aquela
Que paixão a sua
E cai um corpo sangrando
Nas pedras da rua

Mãos carinhosas, generosas
Que não conhecem o rancor
Mãos que o fado compreendem
e entendem sua dor
Mãos que não mentem
Quando sentem
Outras mãos para acarinhar
Mãos que brigam, que castigam
Mas que sabem perdoar

E pouco a pouco o amor regressou
Como lume queimou
Essas bocas febris
Foi um amor que voltou
E a desgraça trocou
Para ser mais feliz
Foi uma luz renascida
Um sonho, uma vida
De novo a surgir
Foi um amor que voltou
Que voltou a sorrir

Há gargalhadas no ar
E o sol a vibrar
Tem gritos de cor
Há alegria na viela
E em cada janela
Renasce uma flor
Veio o perdão e depois
Felizes os dois
Lá vão lado a lado
E digam lá se pode ou não
Falar-se o fado.

Anibal Nazareth

31.5.09

Jardim perdido


Jardim em flor, jardim da impossessão,
transbordante de imagens mais informe,
Em ti se dissolveu o mundo enorme,
Carregado de amor e solidão.

A verdura das árvores ardia,
O vermelho das rosas transbordava,
Alucinado cada ser subia
Num tumulto em que tudo germinava.

A luz trazia em si a agitação
De paraísos, deuses e de infernos,
E os instantes em ti eram eternos
De possibilidades e suspensão.

Mas cada gesto em ti se quebrou denso
Dum gesto mais profundo em ti contido,
Pois trazias em ti suspenso
Outro jardim possível e perdido.

Sophia de Mello Breyner Andresen

6.5.09

São Francisco e o Lobo


O Lobo de S. Francisco de Asis


Andava o povo assustado
A fazer a montaria
Ao grande lobo esfaimado,
Que tanto mal lhe fazia.

Ele levava nos dentes,
Agudos e carniceiros,
Os meninos inocentes
Que são os alvos cordeiros.

E as pessoas assaltando,
Vinha de noite, em segredo,
Com seus olhos chamejando,
Encher a gente de medo.

Ora S. Francisco, era
Incapaz de querer mal
Mesmo que fosse a uma fera,
Até ao tigre real.

Tinha tão bom coração
Que homens e bichos o amavam,
E as andorinhas poisavam
Na palma da sua mão...

E como ele desejava
Que tudo vivesse em paz,
Enquanto o povo caçava,
O Santo, o Poeta, que faz ?

Procura o lobo cruel,
E, tendo-o encontrado enfim,
Chamou-o, foi para ele
Sorriu-lhe e falou assim:

- «Eu sei porque fazes mal,
«Eu sei o que te consome:
«Tu és tão mau afinal,
« Tu és mau porque tens fome
...

«Pois bons amigos seremos,
«Para nosso e teu descanso;
«E de comer te daremos
«Para poderes ser manso.

«Promete que hás-de mudar
«De vida, neste momento;
E em sinal de juramento,
Alevanta a pata no ar
«E põe-na na minha mão!

Jurou o lobo. E cumpriu...
Depois, toda a gente o viu
Tão mansinho como um cão.



(Afonso Lopes Vieira)

O mundo só pode ser...


O mundo só pode ser
melhor do que até aqui

quando consigas fazer

mais pelos outros do que por ti

António Aleixo

poeta algarvio

1.5.09

25 de Abril

25 de ABRIL
Eu vi Abril por fora e Abril pordentro
vi o Abril que foi e Abril de agora
eu vi Abril em festa e Abril lamento
Abril como quem ri como quem chora.

Eu vi chorar Abril e Abril partir
vi o Abril de sim e Abril de não
Abril que já não é Abril por vir
e como tudo o mais contradição.

Vi o Abril que ganha e Abril que perde
Abril que foi Abril e o que não foi
eu vi Abril de ser e de não ser.

Abril de Abril vestido ( Abril tão verde)
Abril de Abril despido (Abril que dói)
Abril já feito. E ainda por fazer...

Manuel Alegre

8.4.09

Intermezzo - M. Torga


Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar...
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).
Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura...
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura.
O que importa é partir, não é chegar.

Miguel Torga, in Viagem

30.3.09

Os lenços de namorados


Aqui tens meu coração.
E a chave pró abrir.
Nun tenho mais que te dar,
Nem tu mais que me pedir.

(versos dos lenços de namorados - Minho-Portugal)

27.3.09

Aquela triste e leda madrugada...



Aquela triste e leda madrugada,

Cheia toda de mágoa e de piedade,

Enquanto houver no mundo saudade

Quero que seja sempre celebrado.


Ela só, quando amena e marchetada

Saía, dando ao mundo claridade,

Viu a postar-se de uma outra vontade,

Que nunca poderá ver-se apartada.


Ela só viu as lágrimas em fio,

Que de uns e de outros olhos derivadas.

Se acrescentaram em grande e largo rio.


Ela viu as palavras magoadas

Que puderam tornar o fogo frio,

E dar descanso às almas condenadas.


Camões

4.3.09

Soneto de Inês

(Columbano)

Dos olhos corre a água do Mondego 
os cabelos parecem os choupais 
Inês! Inês! Rainha sem sossego 
dum rei que por amor não pode mais.

Amor imenso que também é cego amor 
que torna os homens imortais. 
Inês! Inês! Distância a que não chego
 morta tão cedo  por viver demais. 

Os teus gestos são verdes
os teus braços são gaivotas
poisadas no regaço dum mar azul turquesa  intemporal. 

As andorinhas seguem os teus passos
e tu morrendo com os olhos baços 
Inês! Inês! Inês de Portugal.                     

José Carlos Ary dos Santos 



(túmulo de Inês de Castro no mosteiro de Alcobaça - Portugal)

30.11.08

Nuvens correndo num rio


Nuvens correndo num rio
 Quem sabe onde vão parar?
 Fantasma do meu navio
 Não corras, vai devagar!

  Vais por caminhos de bruma
 Que são caminhos de olvido. 
Não queiras, ó meu navio, 
Ser um navio perdido. 


 Sonhos içados ao vento 
Querem estrelas varejar!
 Velas do meu pensamento
 Aonde me quereis levar? 
 Não corras, ó meu navio Navega mais devagar,
 Que nuvens correndo em rio, 
Quem sabe onde vão parar? 

 Que este destino em que venho
 É uma troça tão triste; 
Um navio que não tenho 
Num rio que não existe.                      

  Natália Correia  

16.11.08

O menino de sua mãe





No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado
- Duas, de lado a lado-,
Jaz morto, e arrefece

Raia-lhe a farda o sangue
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos

Tão jovem! Que jovem era!
(agora que idade tem?)
Filho unico, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino de sua mãe».

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve
Dera-lhe a mãe. Está inteira
É boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
"Que volte cedo, e bem!"
(Malhas que o Império tece")
Jaz morto, e apodrece,
O menino de sua mãe.

Fernando Pessoa

1.5.08

Ao meu Pai


Do alto da tua torre de menagem
chora Olivença
Quando te afaga cálida aragem,
,chora Olivença,

Nas ruas igrejas,à portuguesa rendilhadas,
chora Olivença
nas belas casa armoreadas chora Olivença
Sobre os louros trigais
chora Olivença
Porque quem muito te amou não existe mais

Maria Botelho

5.4.08




Não fui, na infância, como os outros
e nunca vi como os outros viam.
Minhas paixões eu não podia
tirar de fonte igual à deles;
e era outra a origem da tristeza,
e era outro o canto, que acordava
o coração para a alegria.
Tudo o que amei, amei sozinho.
Assim, na minha infância, na alba
da tormentosa vida, ergueu-se,
no bem, no mal, de cada abismo,
a encadear-me, o meu mistério.
Veio dos rios, veio da fonte,
da rubra escarpa da montanha,
do sol, que todo me envolvia
em outonais clarões dourados;
e dos relâmpagos vermelhos
que o céu inteiro incendiavam,
e do trovão, da tempestade,
daquela nuvem que se alterava,
só, no amplo azul do céu puríssimo,
como um demônio, ante meus olhos.

Edgar Allan Poe

20.2.08

de Augusto Gil


O PASSEIO DE SANTO ANTÓNIO




  • Saíra Santo António do convento
    a dar o seu passeio costumado
    e a decorar num tom rezado e lento
    um cândido sermão sobre o pecado.
    Andando,andando sempre, repetia
    o divino sermão piedoso e brando
    e nem notou que a tarde esmorecia,
    que vinha a noite plácida baixando...
    ................................................................
    O luar, um luar claríssimo nasceu.
    Num raio dessa linda claridade,
    o Menino Jesus baixou do céu,
    ...............................................................
    Perto, uma bica de água murmurante
    juntava o seu murmúrio ao dos pinhais.
    Os rouxinóis ouviam-se distante.
    O luar, mais alto, iluminava mais.
    De braço dado para a fonte vinha
    um par de noivos todo satisfeito.
    Ela trazia ao ombro a cantarinha,
    ele trazia o coração no peito !
    Sem suspeitarem de que alguém os visse,
    trocaram beijos, ao luar tranquilo.
    O Menino, porém, ouviu e disse:
    _ Ó Frei António, o que foi aquilo?
    O Santo, erguendo a manga do burel
    para tapar o noivo e a namorada,
    mentiu com a voz doce como omel:
    _ Não sei que fosse.Eu cá não ouvi nada...
    Uma risada límpida e sonora
    vibrou, em notas de oiro pelo caminho.
    _ Ouviste ,Frei António ? Ouviste agora?
    _Ouvi,Senhor,ouvi.É um passarinho...
    _ Tu não estás com a cabeça boa!
    Um passarinho a cantar assim?
    E o pobre Santo António de Lisboa
    calou~se, embaraçado, mas por fim.
    corado, como as vestes dos cardeais,
    achou esta saída redentora :
    Se o Menino Jesus pergunta mais,
    queixo-me a sua Mãe, Nossa Senhora
    .

(Imagem protectora do Regimento de Infantaria n.º 19, que tinha o seu quartel em Cascais desde meados do século XVII. A imagem do santo acompanhou o regimento de Cascais durante as campanhas da Guerra Peninsular, sendo por isso que ostenta ao peito a medalha da Guerra Peninsular. Santo António tinha o posto de tenente-coronel no regimento, servindo o seu soldo para ajuda aos soldados doentes. A festa do Santo comemora-se em 13 de Junho. - no Portal da História - )

9.2.08



O TEU OLHAR


Quando fito o teu olhar,
Duma tristeza fatal,
Dum tão íntimo sonhar,
Penso logo no luar
Bendito de Portugal!


O mesmo tom de tristeza,
O mesmo vago sonhar,
Que me traz a alma presa
Às festas da Natureza
E à doce luz desse olhar!


Se algum dia, por meu mal,
A doce luz me faltar
Desse teu olhar ideal,
Não se esqueça Portugal
De dizer ao seu luar


Que à noite, me vá depor
Na campa em que eu dormitar,
Essa tristeza, essa dor,
Essa amargura, esse amor,
Que eu lia no teu olhar!
Florbela Espanca

5.2.08

Entre mochos...


Entre mochos e oboés
de sons desarticulados
errei até ser dia,
com passos mal andados...
na planície gelada
...que frio fazia...
naquela madrugada...

MJB

4.2.08

Natureza


Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é.
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem por que ama, nem o que é amar...




Fernando Pessoa

2.2.08

Árvores do Alentejo

Árvores do Alentejo

Horas mortas... Curvada aos pés do Monte
A planície é um brasido e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a benção duma fonte!

E quando, manhã alta, o sol posponte
A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!

Árvores! Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!

Árvores! Não choreis! Olhai e vede:---
Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água!
Florbela Espanca

23.12.07



Nunca mais


A tua face será pura limpa e viva

Nem o teu andar como onda fugitivaSe poderá nos passos do tempo tecer.

E nunca mais darei ao tempo a minha vida.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.

A luz da tarde mostra-me os destroços

Do teu ser.

Em breve a podridão

Beberá os teus olhos e os teus ossosT

omando a tua mão na sua mão.

Nunca mais amarei quem não possa viverSempre,

Porque eu amei como se fossem eternos

A glória, a luz e o brilho do teu ser.

Amei-te em verdade e transparência

E nem sequer me resta a tua ausência.

És um rosto de nojo e negação

E eu fecho os olhos para não te ver.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.

(Sophia de Mello Breyner)

1.11.07


Porque eu amo-te, quer dizer, estou atento às coisas regulares e irregulares do mundo.


Ou também: eu envio o amor sob a forma de muitos olhos e ouvidos a explorar, a conhecer o mundo.


Porque eu amo-te, isto é, eu dou cabo da escuridão do mundo.

Porque tudo se escreve com a tua letra.


Fernando Assis Pacheco

28.8.07



Meu país desgraçado!...


E no entanto há Sol a cada cantoe não há Mar tão lindo noutro lado.


Nem há Céu mais alegre do que o nosso,nem pássaros, nem águas ..


.Meu país desgraçado!...


Por que fatal engano?

Que malévolos crimes teus direitos de berço violaram?


Meu Povo de cabeça pendida, mãos caídas,de olhos sem fé— busca, dentro de ti, fora de ti, aonde a causa da miséria se te esconde.


E em nome dos direitosque te deram a terra,

o Sol, o Mar,fere-a sem dó

com o lume do teu antigo olhar.


Alevanta-te, Povo!Ah!, visses tu,

nos olhos das mulheres,

a calada censura

que te reclama filhos mais robustos!


Meu Povo anémico e triste,meu Pedro

Sem sem forças, sem haveres!—

olha a censura muda das mulheres!


Vai-te de novo ao Mar!

Reganha tuas barcas, tuas forças


e o direito de amar e fecundaras


que só por Amor te não desprezam!


Sebastião da Gama

21.6.07

A paz sem vencedores nem vencidos


Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Que o tempo que nos deste seja um novo
Recomeço de esperança e de justiça.
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Erguei o nosso ser à transparência
Para podermos ler melhor a vida
Para entendermos vosso mandamento
Para que venha a nós o vosso reino
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Fazei Senhor que a paz seja de todos
Dai-nos a paz que nasce da verdade
Dai-nos a paz que nasce da justiça
Dai-nos a paz chamada liberdade
Dai-nos Senhor paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos

Sophia de Mello Breyner Andersen

5.5.07

mesmo de noite




1. Aquela eterna fonte está escondida,mas bem sei onde tem sua guarida,mesmo de noite.
2. Sua origem não a sei, pois não a tem,Mas sei que toda a origem dela vem,mesmo de noite.
3. Sei que não pode haver coisa tão bela,E que os céus e a terra bebem dela,mesmo de noite.
4. Eu sei que nela o fundo não se pode achar,E que ninguém pode nela a vau passar,mesmo de noite.
5. Sua claridade nunca é obscurecida,e sei que toda a luz dela é nascida,mesmo de noite.
6. Sei que tão caudalosas são suas correntes,Que céus e infernos regam, e as gentes,mesmo de noite.
7. A corrente que desta fonte vemÉ forte e poderosa, eu sei-o bem,mesmo de noite.
8. A corrente que destas duas procede,Sei que nenhuma delas a precede,mesmo de noite.
9. Aquela eterna fonte está escondidaNeste Pão Vivo para dar-nos vida,mesmo de noite.
10. De lá está chamando as criaturas,Que nela se saciam às escuras,mesmo de noite.
11. Aquela viva fonte que desejo,Neste Pão de vida já a vejo,mesmo de noite.

S.João da Cruz

25.3.07

E pedi mais infinito!


Foi quando compreendi
Que nada me dariam do infinito que pedi,
-Que ergui mais alto o meu grito
E pedi mais infinito!

José Régio

14.3.07

Deus



COMO É BOM SABER QUE EXISTE UM DEUS

QUE COM SEU AMOR INFINITO

PERDOA OS PECADOS MEUS

OH! MEU DEUS,SOU PEQUENINA

APRENDO MAS NÃO PRATICO TUDO

O QUE O SENHOR ME ENSINA

QUIZERA SER UMA SANTA

ATENDER AOS SEUS DESEJOS

MAS SOU PEQUENA MEU DEUS

TENHO TODOS OS DEFEITOSE

NO MEU PENSAR PEQUENO

VOCE ME FEZ DESSE JEITO

DEUS,SABES QUE SOU PEQUENA

ISSO NÃO LHE CAUSA ESPANTO

POR ISSO ME CARREGAS

NUMA DOBRA DO TEU MANTO Cassiamaral

16.2.07

Eu, etiqueta...


Em minha calça está grudado um nome
/que não é meu de batismo ou de cartório,
/um nome... estranho. /
Meu blusão traz lembrete de bebida /
que jamais pus na boca, nesta vida. /Em minha camiseta, a marca de cigarro
/que não fumo, até hoje não fumei. /
Minhas meias falam de produto /
que nunca experimentei /
mas são comunicados a meus pés.

Meu tênis é proclama colorido /de alguma coisa não provada
/por este provador de idade.
/Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
/minha gravata e cinto e escova e pente, /meu copo, minha xícara, /minha toalha de banho e sabonete,
/meu isso, meu aquilo,
/desde a cabeça até o bico dos sapatos,
/são mensagens,
/letras falantes,
/gritos visuais, /
ordem de uso,
abuso, reincidência, /
costume, hábito, premência, /
indispensabilidade, /
e fazem de mim homem-anúncio itinerante, /
escravo da matéria anunciada.

Estou, estou na moda. /
É doce estar na moda, ainda que a moda /
seja negar minha identidade, /
trocá-la por mil, açambarcando /
todas as marcas registradas, /
todos os logotipos de mercado.
Com que inocência demito-me de ser
/eu que antes era e me sabia /tão diverso de outros, tão mim-mesmo, /ser pensante, sentinte e solitário /com outros seres diversos e conscientes /de sua humana invencível condição.;

Agora sou anúncio, /ora vulgar, ora bizarro, /em língua nacional ou em qualquer língua /(qualquer, principalmente). /E nisto me comprazo, tiro glória /de minha anulação. /Não sou - vê lá - anúncio contratado. /Eu é que mimosamente pago /para anunciar, para vender /em bares festas praias pérgulas piscinas, /e bem à vista exibo esta etiqueta /global no corpo que desiste /de ser veste e sandália de uma essência /tão viva, independente, /que moda ou suborno algum compromete.;

Onde terei jogado fora /meu gosto e capacidade de escolher, /minhas idiossincrasias tão pessoais, /tão minhas que no rosto se espelhavam, /e cada gesto, cada olhar, /cada vinco de roupa /resumia uma estética? /Hoje sou costurado, sou tecido, /sou gravado de forma universal, /asio de estamparia, não de casa, /da vitrine me tiram, me recolocam, /objeto pulsante mas objeto /que se oferece como signo dos outros /objetos estáticos, tarifados.

Por me ostentar assim, tão orgulhoso /de ser não eu, mas artigo industrial, /peço que meu nome retifiquem. /Já não me convém o título de homem, /meu nome novo é coisa. /Eu sou a coisa, coisamente.;


Drumond de Andrade

Tarde,Te amei


Tarde te amei, Beleza antiga e tão nova,tarde te amei...

.Estavas dentro de mim e eu estava fora...

Estavas comigo e eu não estava contigo......

Tu chamaste-me, gritaste,e venceste a minha surdez.

Tu mostraste a tua luz e a tua claridade expulsou a minha cegueira.

Tu espalhaste o teu perfume, eu respirei-o

E suspiro por ti.

Eu saboreei-te,tenho fome e sede de ti

Tu tocaste-me

E eu queimo do desejo da tua paz.


Santo Agostinho

6.2.07

À Virgem Santissima



Cheia de Graça, Mãe de Misericórdia.
Num sonho todo feito de incerteza,
De noturna e indizível ansiedade,
É que eu vi teu olhar de piedade

E (mais que piedade) de tristeza...
Não era o vulgar brilho da beleza,
Nem o ardor banal da mocidade...
Era outra luz, era outra suavidade,

Que até nem sei se as há na natureza...
Um místico sofrer... uma ventura
Feita só do perdão, só ternura
E da paz da nossa hora derradeira...

Ó visão, visão triste e piedosa!
Fita-me assim calada, assim chorosa...
E deixa-me sonhar a vida inteira!

Antero de Quental

Quero só trazer à memória o que me dá esperança...

Hino da Restauração da Independência



A PORTUGUESA