8.4.09

Intermezzo - M. Torga


Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar...
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).
Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura...
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura.
O que importa é partir, não é chegar.

Miguel Torga, in Viagem

30.3.09

Os lenços de namorados


Aqui tens meu coração.
E a chave pró abrir.
Nun tenho mais que te dar,
Nem tu mais que me pedir.

(versos dos lenços de namorados - Minho-Portugal)

27.3.09

Aquela triste e leda madrugada...



Aquela triste e leda madrugada,

Cheia toda de mágoa e de piedade,

Enquanto houver no mundo saudade

Quero que seja sempre celebrado.


Ela só, quando amena e marchetada

Saía, dando ao mundo claridade,

Viu a postar-se de uma outra vontade,

Que nunca poderá ver-se apartada.


Ela só viu as lágrimas em fio,

Que de uns e de outros olhos derivadas.

Se acrescentaram em grande e largo rio.


Ela viu as palavras magoadas

Que puderam tornar o fogo frio,

E dar descanso às almas condenadas.


Camões

4.3.09

Soneto de Inês

(Columbano)

Dos olhos corre a água do Mondego 
os cabelos parecem os choupais 
Inês! Inês! Rainha sem sossego 
dum rei que por amor não pode mais.

Amor imenso que também é cego amor 
que torna os homens imortais. 
Inês! Inês! Distância a que não chego
 morta tão cedo  por viver demais. 

Os teus gestos são verdes
os teus braços são gaivotas
poisadas no regaço dum mar azul turquesa  intemporal. 

As andorinhas seguem os teus passos
e tu morrendo com os olhos baços 
Inês! Inês! Inês de Portugal.                     

José Carlos Ary dos Santos 



(túmulo de Inês de Castro no mosteiro de Alcobaça - Portugal)

30.11.08

Nuvens correndo num rio


Nuvens correndo num rio
 Quem sabe onde vão parar?
 Fantasma do meu navio
 Não corras, vai devagar!

  Vais por caminhos de bruma
 Que são caminhos de olvido. 
Não queiras, ó meu navio, 
Ser um navio perdido. 


 Sonhos içados ao vento 
Querem estrelas varejar!
 Velas do meu pensamento
 Aonde me quereis levar? 
 Não corras, ó meu navio Navega mais devagar,
 Que nuvens correndo em rio, 
Quem sabe onde vão parar? 

 Que este destino em que venho
 É uma troça tão triste; 
Um navio que não tenho 
Num rio que não existe.                      

  Natália Correia  

16.11.08

O menino de sua mãe





No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado
- Duas, de lado a lado-,
Jaz morto, e arrefece

Raia-lhe a farda o sangue
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos

Tão jovem! Que jovem era!
(agora que idade tem?)
Filho unico, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino de sua mãe».

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve
Dera-lhe a mãe. Está inteira
É boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
"Que volte cedo, e bem!"
(Malhas que o Império tece")
Jaz morto, e apodrece,
O menino de sua mãe.

Fernando Pessoa

1.5.08

Ao meu Pai


Do alto da tua torre de menagem
chora Olivença
Quando te afaga cálida aragem,
,chora Olivença,

Nas ruas igrejas,à portuguesa rendilhadas,
chora Olivença
nas belas casa armoreadas chora Olivença
Sobre os louros trigais
chora Olivença
Porque quem muito te amou não existe mais

Maria Botelho

5.4.08




Não fui, na infância, como os outros
e nunca vi como os outros viam.
Minhas paixões eu não podia
tirar de fonte igual à deles;
e era outra a origem da tristeza,
e era outro o canto, que acordava
o coração para a alegria.
Tudo o que amei, amei sozinho.
Assim, na minha infância, na alba
da tormentosa vida, ergueu-se,
no bem, no mal, de cada abismo,
a encadear-me, o meu mistério.
Veio dos rios, veio da fonte,
da rubra escarpa da montanha,
do sol, que todo me envolvia
em outonais clarões dourados;
e dos relâmpagos vermelhos
que o céu inteiro incendiavam,
e do trovão, da tempestade,
daquela nuvem que se alterava,
só, no amplo azul do céu puríssimo,
como um demônio, ante meus olhos.

Edgar Allan Poe

20.2.08

de Augusto Gil


O PASSEIO DE SANTO ANTÓNIO




  • Saíra Santo António do convento
    a dar o seu passeio costumado
    e a decorar num tom rezado e lento
    um cândido sermão sobre o pecado.
    Andando,andando sempre, repetia
    o divino sermão piedoso e brando
    e nem notou que a tarde esmorecia,
    que vinha a noite plácida baixando...
    ................................................................
    O luar, um luar claríssimo nasceu.
    Num raio dessa linda claridade,
    o Menino Jesus baixou do céu,
    ...............................................................
    Perto, uma bica de água murmurante
    juntava o seu murmúrio ao dos pinhais.
    Os rouxinóis ouviam-se distante.
    O luar, mais alto, iluminava mais.
    De braço dado para a fonte vinha
    um par de noivos todo satisfeito.
    Ela trazia ao ombro a cantarinha,
    ele trazia o coração no peito !
    Sem suspeitarem de que alguém os visse,
    trocaram beijos, ao luar tranquilo.
    O Menino, porém, ouviu e disse:
    _ Ó Frei António, o que foi aquilo?
    O Santo, erguendo a manga do burel
    para tapar o noivo e a namorada,
    mentiu com a voz doce como omel:
    _ Não sei que fosse.Eu cá não ouvi nada...
    Uma risada límpida e sonora
    vibrou, em notas de oiro pelo caminho.
    _ Ouviste ,Frei António ? Ouviste agora?
    _Ouvi,Senhor,ouvi.É um passarinho...
    _ Tu não estás com a cabeça boa!
    Um passarinho a cantar assim?
    E o pobre Santo António de Lisboa
    calou~se, embaraçado, mas por fim.
    corado, como as vestes dos cardeais,
    achou esta saída redentora :
    Se o Menino Jesus pergunta mais,
    queixo-me a sua Mãe, Nossa Senhora
    .

(Imagem protectora do Regimento de Infantaria n.º 19, que tinha o seu quartel em Cascais desde meados do século XVII. A imagem do santo acompanhou o regimento de Cascais durante as campanhas da Guerra Peninsular, sendo por isso que ostenta ao peito a medalha da Guerra Peninsular. Santo António tinha o posto de tenente-coronel no regimento, servindo o seu soldo para ajuda aos soldados doentes. A festa do Santo comemora-se em 13 de Junho. - no Portal da História - )

9.2.08



O TEU OLHAR


Quando fito o teu olhar,
Duma tristeza fatal,
Dum tão íntimo sonhar,
Penso logo no luar
Bendito de Portugal!


O mesmo tom de tristeza,
O mesmo vago sonhar,
Que me traz a alma presa
Às festas da Natureza
E à doce luz desse olhar!


Se algum dia, por meu mal,
A doce luz me faltar
Desse teu olhar ideal,
Não se esqueça Portugal
De dizer ao seu luar


Que à noite, me vá depor
Na campa em que eu dormitar,
Essa tristeza, essa dor,
Essa amargura, esse amor,
Que eu lia no teu olhar!
Florbela Espanca

5.2.08

Entre mochos...


Entre mochos e oboés
de sons desarticulados
errei até ser dia,
com passos mal andados...
na planície gelada
...que frio fazia...
naquela madrugada...

MJB

4.2.08

Natureza


Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é.
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem por que ama, nem o que é amar...




Fernando Pessoa

2.2.08

Árvores do Alentejo

Árvores do Alentejo

Horas mortas... Curvada aos pés do Monte
A planície é um brasido e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a benção duma fonte!

E quando, manhã alta, o sol posponte
A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!

Árvores! Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!

Árvores! Não choreis! Olhai e vede:---
Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água!
Florbela Espanca

23.12.07



Nunca mais


A tua face será pura limpa e viva

Nem o teu andar como onda fugitivaSe poderá nos passos do tempo tecer.

E nunca mais darei ao tempo a minha vida.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.

A luz da tarde mostra-me os destroços

Do teu ser.

Em breve a podridão

Beberá os teus olhos e os teus ossosT

omando a tua mão na sua mão.

Nunca mais amarei quem não possa viverSempre,

Porque eu amei como se fossem eternos

A glória, a luz e o brilho do teu ser.

Amei-te em verdade e transparência

E nem sequer me resta a tua ausência.

És um rosto de nojo e negação

E eu fecho os olhos para não te ver.

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.

(Sophia de Mello Breyner)

1.11.07


Porque eu amo-te, quer dizer, estou atento às coisas regulares e irregulares do mundo.


Ou também: eu envio o amor sob a forma de muitos olhos e ouvidos a explorar, a conhecer o mundo.


Porque eu amo-te, isto é, eu dou cabo da escuridão do mundo.

Porque tudo se escreve com a tua letra.


Fernando Assis Pacheco

28.8.07



Meu país desgraçado!...


E no entanto há Sol a cada cantoe não há Mar tão lindo noutro lado.


Nem há Céu mais alegre do que o nosso,nem pássaros, nem águas ..


.Meu país desgraçado!...


Por que fatal engano?

Que malévolos crimes teus direitos de berço violaram?


Meu Povo de cabeça pendida, mãos caídas,de olhos sem fé— busca, dentro de ti, fora de ti, aonde a causa da miséria se te esconde.


E em nome dos direitosque te deram a terra,

o Sol, o Mar,fere-a sem dó

com o lume do teu antigo olhar.


Alevanta-te, Povo!Ah!, visses tu,

nos olhos das mulheres,

a calada censura

que te reclama filhos mais robustos!


Meu Povo anémico e triste,meu Pedro

Sem sem forças, sem haveres!—

olha a censura muda das mulheres!


Vai-te de novo ao Mar!

Reganha tuas barcas, tuas forças


e o direito de amar e fecundaras


que só por Amor te não desprezam!


Sebastião da Gama

21.6.07

A paz sem vencedores nem vencidos


Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Que o tempo que nos deste seja um novo
Recomeço de esperança e de justiça.
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Erguei o nosso ser à transparência
Para podermos ler melhor a vida
Para entendermos vosso mandamento
Para que venha a nós o vosso reino
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Fazei Senhor que a paz seja de todos
Dai-nos a paz que nasce da verdade
Dai-nos a paz que nasce da justiça
Dai-nos a paz chamada liberdade
Dai-nos Senhor paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos

Sophia de Mello Breyner Andersen

Quero só trazer à memória o que me dá esperança...

Hino da Restauração da Independência



A PORTUGUESA