15.6.10

FLORIRAM POR ENGANO AS ROSAS BRAVAS




Camilo Pessanha


Floriram por engano as rosas bravas
No Inverno: veio o vento desfolhá-las...
Em que cismas, meu bem? Por que me calas
As vozes com que há pouco me enganavas?


Castelos doidos! Tão cedo caístes!...
Onde vamos, alheio pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos, que um momento
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!

E sobre nós cai nupcial a neve,
Surda, em triunfo, pétalas, de leve
Juncando o chão, na acrópole de gelos...

Em redor do teu vulto é como um véu!
Quem as esparze – quanta flor! – do céu
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?

30.5.10

MESMO SENDO NOITE


Que bem sei eu a fonte que mana e corre
Mesmo sendo noite!

Aquela eterna fonte está escondida.
Bem eu sei onde tem sua guarida,
Mesmo sendo noite!

Sei que não pode haver coisa tão bela
E sei que os céus e a terra bebem dela,
Mesmo sendo noite!

Sua origem não a sei, pois não a tem,
Mas sei que toda a origem dela vem
Mesmo sendo noite!

O fundo dela, sei, não pode achar-se;
Jamais por ela a vau pode passar-se,
Mesmo sendo noite!

É claridade nunca escurecida
E sei que toda a luz dela é nascida,
Mesmo sendo noite!

Tão caudalosas são as suas correntes
Que céus e infernos regam, mais as gentes,
Mesmo sendo noite!

Nascida de tal fonte, esta corrente
Bem sei que é mui capaz e omnipotente,
Mesmo sendo noite!

Das duas a corrente que procede
Sei que nenhuma delas antecede,
Mesmo sendo noite!

Aquela eterna fonte está escondida
Neste pão vivo para dar-nos vida,
Mesmo sendo noite!

Aqui está chamando as criaturas:
Desta água se saciem, e ás escuras,
Porque é de noite!

É esta a viva fonte que desejo
E neste pão de vida é que eu a vejo,
Mesmo sendo noite!

S.João da Cruz

27.5.10

Primeiro levaram os negros...


Primeiro levaram os negros,
Mas não me importei com isso,
Eu não era negro.

Em seguida levaram alguns operários,
Mas não me importei com isso,
Eu também não era operário.

Depois prenderam os miseráveis,
Mas não me importei com isso,
Porque eu não sou miserável.

Depois agarraram uns desempregados,
Mas como tenho meu emprego,
Também não me preocupei.

Agora estão me levando,
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

Bertold Brecht

17.5.10

Flores para Coimbra


Que mil flores desabrochem. Que mil flores
(outras nenhumas) onde amores fenecem
que mil flores floresçam onde só dores
florescem.

Que mil flores desabrochem. Que mil espadas
(outras nenhumas não)
onde mil flores com espadas são cortadas
que mil espadas floresçam em cada mão.

Que mil espadas floresçam
onde só penas são.
Antes que amores feneçam
que mil flores desabrochem. E outras nenhumas não.

Manuel Alegre

14.12.09

Andava um dia


Andava um dia
Em pequenino
Nos arredores
De Nazaré,
Em companhia
De São José,
O bom Jesus,
O Deus Menino.

Eis senão quando
Vê num silvado
Andar piando
Arrepiado
E esvoaçando
Um rouxinol,
Que uma serpente
De olhar de luz
Resplandecente
Como a do Sol,
E penetrante
Como diamante,
Tinha atraído,
Tinha encantado.

Jesus, doído
Do desgraçado
Do passarinho,
Sai do caminho,
Corre apressado,
Quebra o encanto,
Foge a serpente,
E de repente
O pobrezinho,
Salvo e contente,
Rompe num canto
Tão requebrado,
Ou antes pranto
Tão soluçado,
Tão repassado
De gratidão,
De uma alegria,
Uma expansão,
Uma veemência,
Uma expressão,
Uma cadência,
Que comovia
O coração!

Jesus caminha
No seu passeio,
E a avezinha
Continuando
No seu gorjeio
Enquanto o via;
De vez em quando
Lá lhe passava
A dianteira
E mal poisava,
Não afroixava
Nem repetia,
Que redobrava
De melodia!

Assim foi indo
E foi seguindo.
De tal maneira,
Que noite e dia
Numa palmeira,
Que havia perto
Donde morava
Nosso Senhor
Em pequenino
(Era já certo)
Ela lá estava
A pobre ave
Cantando o hino
Terno e suave
Do seu amor
Ao Salvador!

João de Deus


12.12.09

Sou um evadido


Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.

Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não se cansar?

Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte,
Oxalá que ela
Nunca me encontre.

Ser um é cadeia,
Ser eu é não ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer.

Fernando Pessoa

9.12.09

Santo Natal para todos/as os/as visitantes!!

Oh meu Jesus adorado
Fecha os teus olhos divinos
Num soninho descansado;
Que a não sermos tu e eu
Todo a gente do povoado,
Desde os velhos aos meninos,
Há muito que adormeceu.

Dorme, dorme, dorme agora
(Cantava a Virgem Maria)
Que mal assomou a aurora,
Sentei-me junto ao tear
E por todo o dia fora,
Até que já se não via,
Não deixei de trabalhar!
E o Menino Jesus não se dormia
E o menino Jesus não se dormia ...

Tornava Nossa Senhora,
Numa voz mais consumida:
Dorme, dorme, dorme agora
E que eu descance também,
Porque mesmo adormecida
Vela sempre, a toda a hora,
No meu peito, o amor de mãe.
E o Menino Jesus não se dormia.

Numa voz mais fatigada,
Tornava a Virgem Maria:
Dorme pombinha nevada,
Dorme, dorme, dorme bem ...
Vê que está quase apagada
A frouxa luz da bugia,
Do pouco azeite que tem.
E o Menino Jesus não se dormia.

Rogava Nossa Senhora:
Modera a tua alegria ...
Não deites a roupa fora
Do teu leito pequenino ...
Não rias mais. Dorme agora
E brincarás todo o dia ...
Dorme, dorme, meu menino.
E o Menino Jesus não se dormia.

Mais triste, mais abatida,
Pedia a Virgem Maria:
Tem pena da minha vida,
Que se a quero é para ti...
Vida aflita e dolorida!
Só por ti a viveria
Tão longe de onde nasci!...
E o Menino Jesus não se dormia.

E a voz da Virgem volveu:
Repara no meu olhar,
Vê como ele entristeceu...
Dorme, dorme, dorme bem,
Oh alvo lírio do céu!
Olha que estou a chorar,
— Tem pena da tua mãe!
Nosso Senhor, então, adormeceu ..

Augusto Gil

30.11.09

Patrão Joaquim Lopes


Ganhou que os traz ao peito
hábitos e medalhas
nunca matando irmãos

mas a rasgar mortalhas!
Tomás Ribeiro

Nasceu em Olhão em 1798 e faleceu em Paço de Arcos em 1890, com 92 anos. Pouco depois de ter aprendido a ler e escrever, começou a trabalhar no mar, com cerca de dez anos, exactamente no mesmo ano (1808) em que decorreu a revolta de Olhão contra os franceses e o caíque Bom Sucesso foi ao Brasil avisar o príncipe regente da restauração da província (Ver Viagem do caíque Bom Sucesso).

Aos 19 anos emigrou como pescador para Gibraltar mas, sem sucesso, pelo que aos 21 anos foi viver para a Vila de Paço d'Arcos, onde trabalhou como remador da falua do Bugio. Aqui tornou-se Patrão de Salva-Vidas, tendo-se destacado por imensa bravura ao salvar centenas de vidas na Barra do Tejo.

Foi condecorado com a Ordem da Torre e Espada pelo Rei D. Luís, a patente de 2º Tenente da Armada pela Marinha, e uma condecoração do governo britânico pelo salvamento da tripulação de duas escunas inglesas.

Teve funeral nacional organizado pela Marinha.

No cemitério de Oeiras pode-se visitar o seu mausoléu, e em Paço d'Arcos existe um monumento de homenagem na rotunda da Avenida Marquês de Pombal.(na Wapedia)

No monumento constam os versos citados.

26.11.09

Sophia


"Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é
necessariamente levado, pelo espírito de verdade que o anima, a procurar uma
relação justa com o homem.
Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é
logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo.
Aquele que vê o fenómeno quer ver todo o fenómeno.
É apenas uma questão de atenção, de sequência e de rigor.
E é por isso que a poesia é uma moral. [...]
Se em frente do esplendor do mundo nos alegramos com paixão, também em frente do sofrimento do mundo nos revoltamos com paixão.
[...]
O facto de sermos feitos de louvor e protesto
testemunha a unidade da nossa consciência."

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Arte Poética II

Lágrima de preta


Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.
Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.
Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.
Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.
Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:
nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio

António Gedeão



30.10.09

outra margem


E com um búzio nos olhos claros

Vinham do cais, da outra margem
Vinham do campo e da cidade
Qual a canção? Qual a viagem?

Vinham p’rá escola. Que desejavam?
De face suja, iluminada?
Traziam sonhos e pesadelos.
Eram a noite e a madrugada.

Vinham sozinhos com o seu destino.
Ali chegavam. Ali estavam.
Eram já velhos? Eram meninos?
Vinham p’rá escola. O que esperavam?

Vinham de longe. Vinham sozinhos.
Lá da planície. Lá da cidade.
Das casas pobres. Dos bairros tristes.
Vinham p’rá escola: a novidade.

E com uma estrela na mão direita
E os olhos grandes e voz macia
Ali chegaram para aprender
O sonho a vida a poesia.

Maria Rosa Colaço

(Musicado por Trovante no álbum Baile no Bosque, 1981)

4.10.09

O que é bonito...


O que é bonito neste mundo, e anima,
É ver que na vindima
De cada sonho
Fica a cepa a sonhar outra aventura...
E que a doçura que se não prova
Se transfigura
Numa doçura
Muito mais pura
E muito mais nova...


(Miguel Torga)

5.9.09

Uma escada


Uma escada em caracol
e que não tem corrimão.
Vai a caminho do Sol
mas nunca passa do chão.
Os degraus,quanto mais altos,
mais estragados estão.

nem sustos nem sobressaltos
servem sequer de lição.
Quem tem medo não a sobe.
Quem tem sonhos também não.

Há quem chegue a deitar fora
o lastro do coração.
Sobe-se numa corrida.
Correm-se perigos em vão.
Adivinhaste: é a vida
a escada sem corrimão.


David Mourão-Ferreira

29.8.09

O pavão



Era um pavão brilhante e lindo
Naquele azul radioso do seu corpo
Mas as penas da cauda
Verdes e azuis já não estavam

Não perdeu o porte soberano
no seu magnifico andar
Mas uma grande melancolia

Nublava-lhe o olhar...

22.8.09

Então e as lenga-lengas?


Sola, sapato,
Rei, rainha
Foi ao mar
Buscar sardinha
Para a mulher
do juiz
Que está presa
Pelo nariz;
Salta a pulga
Na balança
Que vai ter
Até à França,
Os cavalos
A correr
As meninas
A aprender,
Qual será
A mais bonita
Que se vai
Esconder?

recolha de Luísa Ducla Soares


Quantas vezes joguei às escondidas depois do apuramento da lengalenga para quem se escondia e quem ficava a descobrir

ou

um,do li tá

cara de amendoá

quem está livre

livre está


e ainda outra:

De rabo fiz navalha,
De navalha fiz sardinha,
De sardinha fiz farinha,
De farinha fiz menina,
De menina fiz camisa,
De camisa fiz viola,
Fu..frum..fum...fum
Que vou para Angola.

Canções de embalar


Era o meu Pai que se dedicava a essa tarefa...quantas vezes bem cansado ...mas sempre com o mesmo gosto...as que me lembro aí estão:

As cobrinhas d’água

São minhas comadres

Se por lá passares

Dá-lhe lá saudades.



Dá-lhe lá saudades

Saudades minhas

Se por lá passares

Ao pé das cobri(nhas).


O menino que anda na roda

já julga que é alguém

é mas é um macaquinho

que nem barbas tem

Nossa Senhora
faz meia
com linha feita de luz
o novelo é lua cheia
as meias são para Jesus



Olha a rolinha
q'anda no mato
quando mal
se precata
dá o caçador com ela

Que noite serena
que lindo luar
que linda barquinha
que eu vejo nomar
vem,vem ó meu anjo
fujamos daqui
que a noite está bela
e o luar nos sorri

21.8.09

A Balada da Neve




Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.

É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho…

Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria…
. Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!

Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho…

Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança…

E descalcinhos, doridos…
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!…

Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!…
Porque padecem assim?!…

E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
e cai no meu coração.

Augusto Gil

8.8.09

Palram pega e papagaio


Palram pega e papagaio

E cacareja a galinha,

Os ternos pombos arrulham,

Geme a rola inocentinha.

Muge a vaca, berra o touro

Grasna a rã, ruge o leão,

O gato mia, uiva o lobo

Também uiva e ladra o cão.

Relincha o nobre cavalo

Os elefantes dão urros,

A tímida ovelha bala,

Zurrar é próprio dos burros.

Regouga a sagaz raposa,

Brutinho muito matreiro;

Nos ramos cantam as aves;

Mas pia o mocho agoureiro.

Sabem as aves ligeiras

O canto seu variar:

Fazem gorjeios às vezes,

Às vezes põem-se a chilrar.

O pardal, daninho aos campos,

Não aprendeu a cantar;

Como os ratos e as doninhas,

Apenas sabe chiar.

O negro corvo crocita,

Zune o mosquito enfadonho,

A serpente no deserto

Solta assobio medonho.

Chia a lebre, grasna o pato,

Ouvem-se os porcos grunhir,

Libando o suco das flores,

Costuma a abelha zumbir.

Bramam os tigres, as onças,

Pia, pia o pintainho,

Cucurica e canta o galo,

Late e gane o cachorrinho.

A vitelinha dá berros,

O cordeirinho balidos,

O macaquinho dá guinchos,

A criancinha vagidos.

A fala foi dada ao homem,

Rei dos outros animais:

Nos versos lidos acima

Se encontram em pobre rima

As vozes dos principais

6.8.09

A judia


Dorme! eu descanto a acalentar-te os sonhos,
Virgens, risonhos, que te vem dos céus!
Dorme! e não vejas o martírio, as magoas,
Que eu digo às águas e não conto a Deus!

Anjo sem pátria, branca fada errante,
Perto ou distante que de mim tu vás,
Há de seguir-te uma saudade infinda,
Hebrea linda, que dormindo estás!
Onde nasceste? Onde brincaste, oh bela?
Rosa singela que não tens jardim?
Em Jafa? em Malta? em Nazareth? no Egipto?
Mundo infinito, e tu sem berço?! oh! Sim.

Dorme, que eu velo, sedutora imagem,
Grata miragem que no ermo vi;
Dorme – impossível – que encontrei na vida!
Dorme querida que eu não volto aqui!
Folha que o vento da fortuna impele!
Vítima imbele que o tufão roubou!
Flor que n’um vaso se alimenta, cresce,
Ri, desaparece, e nunca mais voltou!

Filha dum povo perseguido e nobre,
Que o mundo encobre o seu martírio, e crê!
Sempre Ashevero a percorrer a esfera!
Desgraça austera! Inabalável fé!
Porque há de o lume de teus olhos belos,
Mostrar-me anelos d’infinito ardor?
Porque esta chama a consumir-me o seio?…
Deus de permeio maldiz o amor!…

Peito! meu peito, porque anseias tanto?
Pranto! Meu pranto, basta já, não mais!
É sina, é sina; remador, voltemos;
Não n’a acordemos… para quê, meus ais?…
Dorme, que eu velo, sedutora imagem,
Grata miragem que no ermo vi;
Dorme – impossível – que encontrei na vida!
Dorme querida que eu não volto aqui!

Tomás Ribeiro (1831- 1901), poeta português

Quero só trazer à memória o que me dá esperança...

Hino da Restauração da Independência



A PORTUGUESA